R.I.P. Tamura Sensei (1933-2010)

Aconteceu há uns 2 ou 3 anos. Eu estava em Buenos Aires com o Clauber e mais uns 10 alunos do Senshin para o seminário de Yamada Sensei. Naquele ano, Tamura Sensei era seu convidado e ambos dividiam as aulas do evento, que obviamente foi incrível. Mas quero contar aqui um pequeno episódio de que me lembrei hoje quando soube da morte de Tamura, vítima do câncer, por volta de 19h de ontem (hora da França).

Em certo momento, o mestre chamou-me para ser seu uke. Jogou-me pra lá e pra cá algumas vezes até que parou o iriminage antes de executar a projeção, mantendo-me desconfortavelmente envergado enquanto explicava algo à platéia atenta. Não sei quanto tempo aquilo durou, mas, para mim, foram séculos de desconforto, apreensão e, por que não dizer, um misto de tensão e honra por estar fazendo ukemi para um dos shihans mais importantes da história do aikido.

De repente, num movimento bem veloz, fui arremessado. Tentei responder o mais rapidamente que pude e, daquela posição, um ushiro otoshi me pareceu a coisa mais apropriada a se fazer.

Esse é dos momentos na vida que eu gostaria de viver de novo para poder fazer diferente. Se tivesse outra chance, eu simplesmente desabaria no chão como um saco de batatas.

Mas não. Eu quis fazer bonito. E aterrissei com o cotovelo esquerdo sobre o peito do pé de Tamura Sensei. E, claro, com meus 90kg sobre meu cotovelo esquerdo. Do chão, imediatamente mirei o rosto do mestre que me olhava fulminante e (quem pode culpá-lo?) furioso. Imagino que a dor foi lancinante, mas, curiosamente, ele não moveu nenhum músculo da face, exceto por um leve tremor em suas pálpebras que, tenho certeza, só eu entendi.

Em seguida, ele saiu andando (sem mancar, é preciso deixar claro) e foi até o outro lado do enorme tatame onde permaneceu parado por alguns minutos. Acredito que ninguém além de nós dois percebeu o que acontecera.

Nobuyoshi Tamura ingressou no Hombu Dojo em 1953 e tornou-se um dos discípulos favoritos do fundador do aikido, Morihei Ueshiba. Foi enviado à França em 1964 para ensinar e lá viveu até ontem. Era diretor técnico da Federação Francesa de Aikido e Budô e uma das principais personalidades do aikido mundial, com mais de 35 mil alunos filiados além de centenas de milhares de admiradores.

Marita, Clauber, Tamura Sensei e eu (Tharso) no USAF Summer Camp, 2004.

No tatame, era uma figura ímpar. Com um ótimo senso de humor e um pouco exótico, como todo gênio, mas bastante genial, ao contrário da maioria dos exóticos. Seu aikido podia ser suave e leve… ou absolutamente devastador. Um aikido de formas livres e indefinidas, mas sempre eficiente, preciso e cheio de energia.

De nossa parte (e aqui falo pelo Senshin Dojo), lamentamos profundamente a perda da família, dos alunos e do aikido. Domu-arigatogozaimashitá, Tamura Sensei.

Voltando ao episódio da cotovelada no pé, um tempo depois, na mesma aula, ele passou por mim e esboçou um sorriso discreto, desses com o canto do lábio. Retribuí mostrando as palmas das mãos, como quem pede desculpas. Ele fechou a cara, aproximou-se e disse algo em japonês cujo significado eu posso imaginar. Depois, continuou andando. Achei bem justo.

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