Entrevista: Yamada Sensei (parte 4 – final)

Hoje, 17 de fevereiro, é aniversário de nosso mestre, Yamada Sensei. Em comemoração, estou publicando a 4ª e última parte da entrevista dada a Peter Bernarth e David Halprin durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. A tradução, como nas outras, é da Cris. Se você não leu as outras partes, acesse: a primeira, a segunda e a terceira. É isso. Feliz aniversário, Sensei.

Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
Sim. Não agüento quando as pessoas não treinam pra valer… Por que vêm? Sempre falo pra mim mesmo que se não conseguir me movimentar mais como quero, fisicamente, eu simplesmente paro. Só porque fico mais velho e talvez não me mova tão bem… Não é motivo para mudar meu estilo. Se eu me vir fisicamente em deterioração, eu paro. Não quero mudar, negando a importância de treinar arduamente, “Oh, assim não, você tem que treinar com suavidade”.

Não quero que as pessoas treinem de acordo com minha idade ou condição. Não vou fazer isso. Eu simplesmente paro. Acontece… As pessoas não se movimentam como costumavam e começam a negar o fato. Não quero que isso aconteça comigo. As pessoas dizem, “Não vá naquele dojo. Você não tem que treinar de forma tão severa. É preciso ser suave.” Mas na verdade eles falam isso porque não conseguem fazer como deveria ser feito. Ou você escuta alguém falando “O-Sensei nunca fez um koshinage”. Isso é idiotice. Só falam isso porque não conseguem fazer… Começam a negar.

É claro que conforme você envelhece, precisa de algum ajuste, mas ainda assim pode manter a pureza, a postura sólida, a técnica limpa, clara. Você deve manter isso sempre. Não precisa ser desleixado. Olhe para o Osawa sensei. Ele não era desleixado mesmo sendo velho. Ainda tinha bom equilíbrio. Essa é uma das razões pelas quais o admiro e respeito, porque na idade dele, ainda era forte.

Na época que Tohei Sensei estava se desligando, você achou que aquela abordagem do tipo Ki se tornaria mais popular?
Não pensei isso, mas ainda assim, estaria tudo bem. Esclarece as diferenças. Por isso fico feliz que ele a tenha chamado de Ki Society, que não tenha usado o Aikido no nome de seu estilo.

Sabe, depois que Tohei Sensei falecer, não acho que alguém consiga fazer o que ele fez. Você não pode aprender algo assim apenas pensando assim. Não dá. Lembre-se, na época que ele se desligou, ele era fisicamente muito forte. Tinha uma boa técnica, vigorosa. As pessoas o viam fazendo demonstrações… E ele os convencia de que estava apenas usando o Ki, mas na verdade ele era muito forte.

Há muitas federações de Aikido hoje…
Isso é positivo. Nossa federação é importante para nós por alguns bons motivos. Pela união, para compartilhar idéias… Mas por outro lado me alegro de ver outras federações. É impossível esperar que todo mundo trabalhe junto. Eles têm idéias diferentes.

Nossos membros gostam de mim e Kanai Sensei e dos outros Shihan pessoalmente, e gostam de nosso Aikido. Ótimo. Se as pesssoas querem se juntar a nós porque gostam da nossa técnica, bem. É assim que somos. Por isso temos menos problemas do que outras organizações, porque vocês não estão envolvidos politicamente.

Essa é a reazão pela qual fazemos do jeito que fazemos. O principal é que vocês continuem praticando, é só o que precisam. Não precisam entrar em conflito com os outros. Vocês estão aqui principalmente para praticar, certo? Por isso as pessoas, principalmente na Europa, nos invejam. Dessa forma há mais tempo para treinar ao invés de toda hora ter que ir a reuniões.

Você ficou surpreso quando o Aikido começou a crescer tanto?
Sim e não. Acho que nem mesmo o O-Sensei imaginava que iria se tornar tão popular no mundo todo. Por outro lado, acredito que houve boas razões para o público ter aceitado o Aikido.

Por que ele se tornou tão popular?
Bom, várias razões… O aspecto espiritual é uma razão, claro, mas na verdade simplesmente por causa dos movimentos do Aikido. Todo mundo tem o desejo de estabelecer contato físico… Mas o judô talvez seja muito bruto, com muita luta e no karatê você não tem contato físico a não ser que esteja sparring. No Aikido há certo contato físico, mas com movimentos fluidos. Você aprecia o treino… Estabelecendo contato físico. É uma sensação boa. Às vezes, você se machuca, ou às vezes, machuca alguém… Mas isso te deixa feliz (risos).

É engraçado, na sua cabeça você acha que gostaria de bater em alguém. No Aikido você de fato tem esse contato físico. Você os arremessa no chão ou faz uma chave e fica satisfeito. Claro que no judô a história é diferente. Se quiser competir, não é fácil. Nem todos conseguem. É preciso excelente forma física. É difícil se você é mais velho ou pequeno. O Aikido está mais no meio. Você pode fazer como lhe agradar. Vigoroso, suave, como quiser. Acho que por isso ele é tão popular, porque as pessoas têm satisfação, independentemente de sua condição física ou limitações… E é efetivo.

Você poderia falar um pouco sobre a importãncia de sua relação com o Hombu dojo e os outros uchi deshi? Você freqüentemente traz shihans do Japão e outros paises para nossos seminários. Por favor, explique sobre os contatos com o Hombu agora e a manutenção das relações com aqueles professores.
Bom, como você sabe, tem havido alguma desavença quanto a certos assuntos, chegando às vezes a parecer uma Guerra Fria. Mas não sei, talvez estejamos exigindo muito deles, entende? Eles têm suas próprias situações e considerações. Isso é compreensível. Eles cometeram alguns erros conosco, os quais eles mesmos admitem atualmente. Eles têm suas desculpas, suas próprias circunstâncias. Entendo que é difícil porque sei como é. Quando você é o chefe há certas responsabilidades. Portanto, algumas coisas eu compreendo, porque embora esteja lidando numa escala diferente, também estou nessa condição, porém, algumas coisas têm que ser corrigidas.

Mas independentemente do que tenha acontecido, nós permanecemos conectados. Esse é um ponto interessante na sociedade do Aikido, temos um forte background, uma forte conexão com a família do fundador. Só no Aikido. No judô eles já a perderam. Quem se importa com a família Kano hoje?

E quem sabe… No Aikido pode acontecer a mesma coisa. Uma geração depois da nossa talvez eles nem saibam quem é Ueshiba. Não acredito que todo dojo coloque a foto de Moriteru. Duvido. Mas que posso fazer? Tento manter esse tipo de tradição e conexão. Uma linha direta. Por isso em todo Summer Camp tentamos convidar aqueles que estão trabalhando na instituição central, no Hombu.

Talvez parte do problema seja que nós todos fomos embora de lá. Eu, Tamura, Kanai, Chiba, Sugano. A nova geração não conheceu O-Sensei. Portanto, para a geração mais nova, talvez seja importante mantermos contato com eles, ensinar-lhes a história, como era com o O-Sensei no dojo naquele tempo. Houve um “gap” entre a segunda e a terceira geração. Fomos todos embora. Sentimos-nos meio culpados por isso. E isso nos traz a responsabilidade de manter o contato.

O mundo do Aikido parece ter crescido imensamente através dos anos. Hoje, todos vocês shihans, que partiram, possuem grandes organizações de Aikido fora do Japão. Muito da experiência do Aikido está agora fora do Japão. Você vê formas nas quais os Shihans internacionais possam colaborar com o Hombu dojo hoje e compartilhar suas experiências ?
É uma questão de confiar um no outro.

Em sua recente viagem ao Japão, em maio, você deu uma aula no Hombu dojo.
Aquela foi a primeira vez. A primeira vez que um de nós, shihan, deu uma aula regular lá, desde que saímos do Japão.

Você espera que esse tipo de coisa comece a acontecer com mais freqüência?
Quando eu estava falando com eles antes e depois da aula, disse que esperava ser essa a primeira de muitas oportunidades, tanto para mim quanto para os outros shihan. Senti ter aberto uma nova ponte e, de agora em diante, quando meu Sempai ou meu Kohai voltarem, espero que eles tenham a mesma oportunidade.

Dessa forma o conhecimento poderia ser comparttilhado.
Isso.

Você poderia falar um pouco sobre o Shihankai que foi formado recentemente?
Alguns fatos importantes… Claro, somos todos indivíduos diferentes, com diferentes formas de pensamento, diferentes formas de ensinar as pessoas, diferentes estilos de Aikido. Mas, se algo acontecesse a nós, algum conflito, acho que os alunos seriam os que iriam sofrer, porque, vamos supor que eu e Chiba Sensei tenhamos uma discussão e decidamos não trabalhar mais juntos. Nossos alunos são os que irão sofrer.

É importante estarmos juntos, não só pelo nosso benefício, mas pelo de todos, dos alunos. É importante que estejamos trabalhando juntos de alguma maneira, mostrando que temos boas relações, ao invés de ficar brigando. Porque nesse caso vocês serão forçados a tomar uma decisão. Como eu e Kanai Sensei. Se algo acontecesse entre nós, haveria separação completa. E vocês teriam que tomar uma decisão, fazer uma escolha. Isso é péssimo.

Por isso o Shihankai é uma coisa boa. Não por razões políticas, mas por amizade, por trabalharmos e aprendermos juntos. Cada um de nós tem uma maneira diferente de ensinar aos alunos, filosofias diferentes. Especialmente pelo tamanho de nosso país, tão grande. Não conseguimos manter muito contato entre todos hoje. Portanto, é bom trabalharmos juntos, fazer seminários um com o outro.

Então o Shihankai foi formado como uma maneira de dar continuidade à amizade e criar comunicação positiva?
Acho que sim. Idealmente, seria bom se todos os shihan se juntassem com freqüência e fizessem seminários. Seria muito bom. Mas de novo, por causa do tamanho de nosso país, é difícil. Em um país como a França é possível. Eles se reúnem com Tamura, todos os shidoins, mas aqui não é assim. Financeiramente, economicamente, nem todos podem se dispor facilmente.

Algumas vezes os shihan se reúnem como um grupo.
É, isso é bom. Como na celebração dos 30 anos do New York Aikikai na Colgate University. Vez ou outra, conseguimos juntar pessoas suficientes para apoiar esse tipo de evento. Foi ótimo.

É um grande benefício para seus alunos poderem treinar com todos vocês pelo menos uma vez.
É bom mostrar aos alunos que todos os shihans estão trabalhando bem unidos.

Uma coisa que sempre foi positiva é que mesmo tendo um professor principal, como Kanai Sensei ou você, nós também tivemos a oportunidade de passar bastante tempo aprendendo com os outros shihans, como Sugano Sensei, Chiba Sensei e Tamura Sensei. Tivemos o benefício de muitos professores e essa tem sido uma grande experiência para nós.
É bom. Vocês têm muita sorte.

Mas também foi importante para nós saber que era de um só professor que aprendíamos os fundamentos.
Isso é importante para que vocês não fiquem confusos.

É assim também que você vê isso?
É. Você pode ter a oportunidade de roubar algo bom de todos, mas seus fundamentos devem ser do seu próprio professor no dia a dia.

É esse um dos motivos pelos quais, por muitos anos, desde o início na verdade, você trouxe professores do Hombu?
Sim. É uma oportunidade para que eu mantenha boas relações com outros shihans. Se eu começar a ficar muito presunçoso, tipo não preciso de ninguém ou quero ser o chefão e coisa assim, o que irá acontecer? Suas oportunidades vão ficar limitadas. É por eu ter boas relações com Tamura Sensei que ele vem a Nova York ou ao Summer Camp.

Em troca, ganho a oportunidade de ir ao Summer Camp deles. É bom ter diversidade, mais oportunidades aparecem em um nível internacional, global. Porém, se eu estabelecer somente minha família, no gênero “não preciso de nenhum outro shihan”, por ter inveja deles ou coisa parecida, é péssimo. Sua habilidade de aprender fica limitada. É um mundo pequeno e acredito que devamos permanecer unidos.

Essa atitude parece ter sido benéfica. A qualidade de seus alunos é alta… Falando de nós mesmos!
Isso porque você foram expostos a bons professores. Naturalmente, tenho que julgar quem eu considero bom. Não vou convidar alguém que não é bom só porque é um amigo. Eu não faria isso. É desperdício de dinheiro e tempo. Mesmo não gostando particularmente de um shihan, eu o convidaria se achasse que é benéfico para vocês.

Como você vê o futuro, Sensei?
Bem, vocês é que me dizem, vocês são o futuro… (risos)

Como você gostaria que fizéssemos as coisas no futuro ou que direção você gostaria que tomássemos?
Só não quero que vocês se percam. Quero que saibam para onde ir. Não importa qual o argumento, continua sendo importante manter uma conexão com o dojo central, independentemente de quem estiver lá, porque aquilo é o que o publico vê. Essa é nossa organização, não interessa. É de lá que vêm nossos certificados.

Se algum dia tomarmos a decisão de romper com a instituição central será porque nos preocupamos com seu futuro. Mas não sei se seria uma boa decisão. Por exemplo, se ficássemos independentes e emitíssemos nossos próprios certificados da graduação de Dan. Enquanto estivermos aqui tudo bem, mas e depois de nós, o que irá acontecer? Mais tarde, as pessoas dirão, “O que significa esse certificado? É só um pedaço de papel.” Mas se ele vier da organização central, tem um valor inerente. Tem uma tradição.

É por isso que na Europa há dois testes para graduação de Dan. Um nacional e um da instituição central. Eles criaram o nacional, mas os alunos ainda querem fazer o exame Aikikai e pegar o certificado Aikikai. Essa é a realidade. As pessoas dão valor a essa conexão com a central. Não sei o que acontecerá depois que nos retirarmos. Veremos o que vai acontecer. Sei que vocês provavelmente continuarão a trabalhar junto com seus amigos na nossa organização aqui nos Estados Unidos e fora.

Você nos daria algum conselho quanto a essa situação?
A solução? Tenho que permanecer jovem. Tenho que viver muito. (risos)

Parece que já existe uma conexão sólida entre os alunos dos shihan internacionais. As pessoas freqüentemente viajam para seminários de outros grupos. Muitos shidoins estão ensinando internacionalmente. As relações já estão se formando entre os instrutores mais jovens. Parece que nosso futuro já está preparado e que iremos manter essa conexão. A forma como todos vocês têm trabalhado juntos tem sido passada para a nossa geração.
Acho que há amizades fortes no grupo que irão manter um elo. Espero que tenhamos construído algo que perdure. Mas nunca se sabe. Nem sei exatamente o que vai acontecer no meu próprio dojo quando eu me for. Quem ficará encarregado? Tentarei não deixar nenhum conflito, não sei como, mas é da natureza humana ter diferenças. Talvez algumas pessoas briguem pelo dojo.

O Havaí é um bom exemplo. Eles brigaram para ver quem poderia usar o dojo. Aquele dojo pertencia aos membros e eles acabaram brigando para decidir quem poderia usá-lo. O New York Aikikai também pertence aos membros. Portanto podem surgir problemas. Seria diferente se eu tivesse um filho que assumisse, como na família Ueshiba. Mas meu filho não está envolvido com Aikido, então fica difícil prever o futuro no que se refere à nossa federação. Poderia haver uma cisão, mas ainda assim haveria uma boa parte de vocês que permaneceria unida e manteria a ordem. Não sei quantos, não sei quem exatamente, mas acho que incluiria vocês David e Peter, Claude (Berthiaume), e Harvey (Konigsberg).

Acho que isso é algo que já deveríamos começar a pensar de alguma forma.
Sim. De agora em diante quero passar mais tempo fazendo isso. Pensando em como manter vocês e a organização unida. Por isso quero estabelecer uma comunicação direta entre vocês e a instituição central, para o futuro. Não importa o que aconteça, vocês precisam manter comunicação com o dojo central. Aonde mais vocês iriam quando fossem ao Japão? O sonho de todo mundo é ir ao Japão e treinar no Hombu Dojo. Não há como negar isso.

Você acha que o Hombu dojo está tentando manter uma boa conexão conosco também?
Sim, acho que eles estão vendo a importância disso e também estão tentando. Eles se preocupam com sua relação comigo e com os outros shihan. Nós conversamos sobre esses assuntos. Se eles cometem um erro, devemos abordá-los diretamente. Temos que ter capacidade de dizer ‘não’ se discordarmos.

Escrevi em um artigo que, sendo um líder, você deve ter pessoas que possam lhe dizer ‘não’. “Olha, sensei, isso está errado. Não acho que é boa idéia.” É importante que haja essas pessoas e você deve escutá-las. Não se está sempre certo. Eu cometo erros. Como o Peter, às vezes você vem e diz alguma coisa quando discorda de mim. Não me importo, se acho que a idéia é boa vou com você. Se não concordo, te mando pro inferno! (risos)

Sensei, queremos lhe agradecer por essa entrevista. Cobrimos vários assuntos diferentes. Foi meio livre, sem direção determinada.
Acho que um elemento importante aqui é fazer com que o público saiba quem e o quê nós somos. Falar francamente. Dizer que há alguns grupos que estão no caminho certo. Nesse momento, muita gente está perdida. Há tanta porcaria por aí. Eles não sabem onde encontrar o verdadeiro Aikido. Dessa forma, pelo menos, eles têm alguma informação para tomarem sua decisão. Foi uma boa idéia. Sempre estarei disponível para entrevistas como essa.

One Comment to “Entrevista: Yamada Sensei (parte 4 – final)”

  1. [...] Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico? (… Continua) [...]


Leave a Reply