Medo de sofrer ou provocar uma lesão

Nota: após meu último post, nosso amigo Karam levantou algumas boas questões às quais comentarei nos próximos dias. Esta é a primeira da série.

A primeira vista, uma arte marcial pode parecer algo perigoso, uma vez que a maioria das pessoas pensa nisso como “pessoas batendo em outras pessoas”. Mas sejamos racionais:

Onde (e com quem) você está?

O dojo é um ambiente controlado, ou seja:

  • Você sabe o que acontecerá a seguir;
  • Você sabe como deve proceder;
  • Seu parceiro de treino não é um inimigo, mas sim um companheiro que está ali para aprender como você e com você.
  • Há um instrutor com experiência, capacidade e responsabilidade que se certifica de que todos têm capacidade para executar os movimentos propostos. E qualquer bom instrutor sabe que segurança precisa ser prioridade no tatame. É ela (a segurança) que faz com que as pessoas voltem dia após dia, pratiquem e evoluam. Além disso, quando todos estão seguros a energia no dojo é melhor.

Com que frequência ocorrem acidentes no aikido?

Em cerca de 15 anos de aikido, vi um único acidente relativamente grave no tatame (causado não por uma agressão, mas por pura distração) e já soube de apenas 2 ou 3 outros acidentes mais chatos.

No mesmo período, perdi as contas de quantos amigos machucaram-se seriamente andando de moto, jogando futebol ou correndo atrás de gaivotas em praias desertas.

Por que acontecem acidentes no tatame?

Já presenciei vários incidentes com pouca gravidade, como estiramentos, dedos quebrados, pés torcidos e coisas assim.

A imensa maioria desses episódios tem uma coisa em comum: ocorreram em momentos de descontração excessiva, e, principalmente, quando os envolvidos “treinavam” depois de terminada a aula.

Ocorre, que, após o término do treino, normalmente o nível de atenção e concentração cai. Além disso, muitas vezes, o instrutor não está mais presente. Creia-me: é quando a bruxa fica solta.

Hummm… Então nunca devo treinar fora da aula?

Você já deve ter ouvido dizer que a maioria dos acidentes automobilísticos ocorre a poucos quarteirões de casa, quando o motorista relaxa e fica desatento. Pois é. Não há problemas em se treinar fora do horário de aula, mas é fundamental que isso seja feito com concentração e segurança (de preferência, na presença de alguém com experiência).

Ainda sobre isso, é interessante notar como toda a formalidade no protocolo do aikido (que para alguns pode parecer meio inútil) leva, naturalmente a um nível de atenção mais elevado. Recomendo que, ao treinar fora de aula, faça todas as reverências e mantenha o protocolo de treino.

Sinto um certo desconforto ao cair. O que há de errado?

Nada. Trata-se do seu corpo em fase de adaptação a novos movimentos. Muitas vezes, um iniciante consegue executar de forma satisfatória um rolamento, mas, mesmo assim, sente um certo incômodo… Ora, rolar no chão é algo que as pessoas, em geral,  não estão acostumadas.

Por mais que eu diga a você o que fazer, nossos corpos são diferentes, nossa consciência corporal e nossos reflexos são diferentes. É absolutamente natural que seu corpo reclame no começo.

Mas acredite: isso não é ruim. Desde que você não esteja se machucando pra valer, esses desconfortos, somados à prática frequente, fazem com que seu corpo descubra a forma ideal para executar cada movimento.

E, quando isso acontecer, vou gostar de cair?

Algumas pessoas acham que é masoquismo, mas a verdade pura e simples é que cair é uma delícia. Receber uma técnica, “voar” com o corpo relaxado por alguns momentos e chegar ao chão sem se machucar é uma verdadeira terapia anti-estresse. E além disso, não há maneira melhor de se aprender aikido do que recebendo as técnicas.

Mas.. e se não me sinto apto a executar um movimento durante a aula?

Comunique sua insegurança ao instrutor. Ele está ali para orientá-lo e protegê-lo, mas não possui poderes que o permitam sentir as suas dores ou medos. Nunca tenha vergonha de se dirigir ao instrutor com uma dúvida ou insegurança referente às técnicas. O tatame não é lugar para esse tipo de coisa. Ali, todos estão fazendo seu melhor para aprender e evoluir. Lembre-se que os mais experientes também já foram iniciantes um dia e passaram por todas essas dificuldades. Eles terão prazer em ajudá-lo.

E quanto ao meu parceiro de treino, como me certificar de que não vou machucá-lo?

Tente sempre entender os limites do seu parceiro e respeite-os. Mantenha a intensidade do treino, bem como a velocidade das técnicas, adequada à experiência dele.

Treine de forma séria e concentrada, mas seja gentil e compreensivo quanto às motivações do seu companheiro, afinal ele está “emprestando seu corpo” para que você possa praticar e se desenvolver. Lembre-se: nem todas as pessoas estão sobre o tatame pela mesma razão, mas todas devem ser respeitadas igualmente.

4 Comments to “Medo de sofrer ou provocar uma lesão”

  1. Gra 26 January 2010 at 00:06 #

    Excelente post.
    Adorei a finalizacao do texto!
    Ah, o site/blog ficou com layout bem bacana!
    bj

  2. tharso vieira 26 January 2010 at 04:07 #

    Valeu, Grá! =)

  3. Paulo Marcondes 26 January 2010 at 22:56 #

    Olá, apesar de ser estudar outra arte marcial, seus pensamentos vieram ao encontro dos meus, apesar de menos experiência com artes marciais.

    A atenção, o respeito são os principais fatores de prevenção de acidentes na prática de artes marciais, especialmente se armas estiverem envolvidas.

  4. Karam 2 February 2010 at 10:13 #

    Obrigado Sensei!
    sobre as quedas. Acho que o grande passo é quando você transforma o cair na possibilidade de se defender.
    O problema é que quando se está no início, como é o meu caso, as pessoas tendem a tentar identificar as partes e ficam desatentas para o “todo” da técnica. Aí quando vou tentar me defender caindo de maneira certa, o bonde já está lá na frente… não dá tempo! rs…
    um abraço

    Karam


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