Entrevista: Yamada Sensei (parte 2)

(Por Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan)

Nota do editor: Esta é a segunda parte da entrevista com Yamada Sensei que aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. No trecho a seguir, Yamada Sensei relembra seus dias como uchi-deshi no Hombu Dojo. (para ver a primeira parte da entrevista, clique aqui; para ver a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online, clique aqui). Mais uma vez, agradecemos à Cris pela tradução.

Hombu Dojo
Da esq para dir: Y. Kobayashi, (?), N. Tamura, M. Noro, (?), Y. Yamada.

Como era treinar com O-Sensei?
O-Sensei não ensinava num horário regular. O Doshu dava a aula das 6h30 da manhã. Sempre que O-Sensei estava por perto, e sempre que tinha vontade, ele interrompia a aula. Ele simplesmente entrava e dizia “Não se incomode, não se incomode, continue praticando”. Mas ele queria falar. Ele era tão gracioso, sabe? Ele passava por ali enquanto praticávamos porque toda vez que ia usar o banheiro tinha que cruzar a entrada do dojo. Ele ia e voltava, esperando que alguém o convidasse para entrar, sabe? Depois de ser ignorado ele não agüentava. Ele entrava e dizia: “Bom dia a todos”, e falava “Continue, continue…” (risos)… Então ele falava e falava e falava…Era engraçado.

A aula das 8h era dada pelo Tohei Sensei quando ele estava lá. Tohei Sensei e Osawa Sensei, basicamente. Naquela época, Tohei ia muito ao Havaí. Ele ia, ficava um ano, mais ou menos, e então voltava.

Para a aula das 6h30 da manhã nós ficávamos meio atarefados. Tínhamos de limpar o dojo por dentro e fora em meia hora. Acordávamos às 6 horas e tirávamos o pó de tudo, porque era nosso dojo. Era nossa responsabilidade. Tínhamos que terminar antes dos alunos chegarem. Na aula das 6h30, tínhamos de ajudá-los, eles eram meio principiantes. Mas a aula das 8hs era realmente treino para nós. Muitos estudantes de faculdade vinham para aquela aula, então era bom. A aula das 3h da tarde era dada pelo Tada Sensei, que era muito popular com os jovens e esse era bom treino para nós também.

Todos estavam fora com o Doshu ou Tohei nas aulas da noite, porque eles tinham que sair para trazer alguma receita para o dojo. Portanto, não me lembro muito dessas aulas. Além disso, se eu tivesse tempo livre, eu jogava hooky, portanto não ia nessas aulas. De vez em quando eu ia. Eu era um gênio jogando hooky.

Você pode nos contar algumas das suas técnicas? (risos)
Simplesmente desapareça! (mais risos)

Esse é o segredo, apenas desapareça?
É claro que quando ingressei, não havia ninguém abaixo de mim. Só havia Arikawa Sensei, Tamura Sensei e eu, e Noro de vez em quando, mas eu era o mais novo e, portanto, tinha que fazer tudo.

O trabalho mais duro naquela época, e que para mim era o mais fácil, era limpar o banheiro e a sala de banho – havia dois banheiros no estilo japonês. Como levava muito tempo para limpá-los, era uma boa desculpa para se atrasar para a aula (risos). Então, eu me oferecia para fazer essa tarefa. Além do mais, você podia dormir um pouco mais. Eu estava no banheiro, e ninguém me incomodava, e era uma boa desculpa para me atrasar 10, 15 minutos.

Quando conhecemos os instrutores mais velhos, Osawa Sensei, Tada Sensei, Arikawa Sensei, todos tem muitas peculiaridades. Como eles eram na época? Eles eram iguais?
Claro. Tada Sensei nunca mudou. Eu vejo suas demonstrações em vídeos. Ele nunca mudou. Acho que alguém que mudou muito foi Arikawa Sensei, de pior para melhor. Ele era selvagem, maldoso.

Era assustador?
Sim. Era assustador fazer ukemi para ele.

>> Veja no Facebook do Senshin o vídeo do 11º All Japan Demonstration, em 73, com demonstrações de Tada Sensei, Arikawa Sensei, Osawa Sensei e do segundo Doshu, Kishomaru Ueshiba.

Parece que sempre houve uma relação especial com Osawa sensei?
Sim. Eu era seu uke favorito. Ele gostava de mim. Acredite se quiser, eu era um bom uke. Eu era bem flexível e bem magrinho. Ele tinha uma movimentação de condução ampla, difícil de acompanhar. Sua técnica exigia um bom uke. Dessa forma, ele parecia ainda melhor. É óbvio que todo mundo precisa de um bom uke para parecer melhor. Menos o Arikawa Sensei que não precisa de um bom uke. Não importa… Você não tinha opção (risos)!

Como era com Tohei Sensei?
Fazer ukemi para ele… Era um pouco difícil para algumas pessoas. Eu fazia ukemi para ele às vezes nas suas aulas particulares porque eu falava inglês. Não muito bem, mas na época pelo menos, ele tinha dificuldades em se comunicar por causa de seu inglês híbrido, rudimentar. Mas muitos americanos vinham fazer aulas com ele, então eu tinha que fazer ukemi.

O que aconteceu com Tohei Sensei?
Bom, eu vou contar. Infelizmente, o que aconteceu, mas ele era uma pessoa incrível. Personalidade forte, bom uke, valoroso, você sabe, um grande coração. Completamente o oposto da personalidade do Doshu. O Doshu era mais quieto, pacato. Você podia falar com Tohei Sensei sobre tudo. Ele adorava beber. Ele era como um ídolo. No meu entender ele era. Você sabe, quando você é jovem, você fica impressionado. O cara foi para o Havaí e voltou com uma camiseta havaiana bonita, cheirando a colônia boa e bebendo scotch como água. Eu pensava “Meu Deus”, sabe? Sempre rodeado de mulheres… Nós éramos jovens, sem dinheiro, portanto ele realmente nos impressionou.

Como foi que você começou a dar aulas?
Eu já falava um pouco de inglês. Foi assim que eu acabei dando aula. Naquele tempo havia muitas bases militares americanas ao redor de Tóquio. Essa era outra razão pela qual eu não podia fazer as aulas da noite. Eu era responsável por ensinar em duas bases. Eu saía do dojo as 4h ou 5h para ir para lá. Levava uma hora de trem. A essas alturas, todos os alunos já tinham terminado suas tarefas diárias.

Esses foram bons tempos. Eu ia para o clube dos oficiais depois da aula e bebia um bom Scotch, o que, claro, era impossível conseguir no Japão naquela época. Scotch? Esquece! Mas lá você tomava Scotch como água. Eu também dava aulas na universidade, então todos os alunos de lá queriam vir comigo para me ajudar! Aí, não sei como aconteceu, mas eu e Kanai fizemos uma equipe. Íamos juntos para Yokohama todo fim de semana.

Yokohama? Era lá que era o dojo americano?
Sim. Era numa base militar.

Como que os militares americanos conheceram o Aikido?
Bem, eu não sei exatamente, mas, de novo, havia informações das conexões do Tohei Sensei no Havaí. Foi naquela época que as pessoas começaram a saber mais sobre Aikido, os americanos estavam lá, e alguns militares tinham vindo ao Hombu dojo.

Na época, era uma receita enorme para o Hombu dojo. Quando eu saía para ensinar, eu cobrava por aula, pegava o dinheiro e voltava para o dojo. Era muito dinheiro. Ainda me lembro. Na época o dólar era forte por causa da economia japonesa. O yen não valia nada. Eu acho que naquele tempo, quando ingressei no dojo, a mensalidade era de 500 yens. 500 yens, na época, era um valor considerável. Lembro-me que uma tigela de “lamen” custava aproximadamente 25 yens. Quando eu cobrava pelos gi’s, eu arrecadava 2.500 yens por pessoa por uma aula! Portanto, com 10 ou 15 pessoas na aula, era uma boa quantia, quase o salário que um professor universitário ganhava em um mês eu conseguia em uma noite. Era bom para o dojo.

Você e os outros uchi-deshi da época se tornaram bons amigos?
Sim. Eu não tinha problemas. Eu me dava bem com todo mundo. Éramos todos pobres. Não tínhamos muita chance de sair. De vez em quando, alguém nos convidava, algum membro convidava os uchi-deshi para sairmos juntos. Mas geralmente, todo mundo estava fora dando aulas, então não tínhamos muito tempo. De jeito nenhum se saía junto para comer e beber como se faz hoje. Não poderíamos bancar de forma alguma. Quando acontecia, alguém nos patrocinava, nos convidava.

Eu era bem próximo do Noro. Nós passeávamos juntos, bastante. Mais tarde, Kanai Sensei e eu nos aproximamos quando dávamos aula na base militar. Como eu disse, éramos uma boa equipe.

Sensei, como você acabou vindo para os Estados Unidos?
(Continua…)

4 Comments to “Entrevista: Yamada Sensei (parte 2)”

  1. [...] era treinar com O-Sensei? (continua…) Tags: yamada [...]

  2. [...] de Koichi Tohei do Aikikai. (você também pode acessar a primeira parte da entrevista, a segunda parte e a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online). Mais uma vez, agradecemos à Cris [...]

  3. [...] tradução, como nas outras, é da Cris. Se você não leu as outras partes, acesse: a primeira, a segunda e a terceira. É isso. Feliz aniversário, [...]

  4. [...] de Koichi Tohei do Aikikai. (você também pode acessar a primeira parte da entrevista, a segunda parte e a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online). Mais uma vez, agradecemos à Cris [...]


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