Entrevista: Yamada Sensei (parte 1)

Publicado em November 16, 2009

(Por Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan)

Essa entrevista com Yamada Sensei aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. É a primeira parte de uma extensa entrevista. Aqui, com seu jeito caracteristicamente franco e alegre, Yamada Sensei relembra seu começo no aikido e seus primeiros dias como uchi-deshi no Hombu Dojo. Para ver a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online, clique aqui. Agradecemos à nossa querida Cris pela tradução.

Yamada Sensei, Hombu Dojo

Sensei, a primeira coisa que gostaríamos de lhe perguntar é sobre sua história no Aikido. Sua história pessoal, porque você começou no Aikido e como isso aconteceu?
Eu comecei por causa de meu tio, Tadashi Abe Sensei. Ele era uchi-deshi de O-Sensei bem no início. Foi através dele que eu conheci O-Sensei e o Aikido. Eu dizia pra mim mesmo, um dia, quando tivesse a idade certa, eu queria praticar, queria estudar com O-Sensei. Além disso, eu tive bastante sorte de ser aceito como uchi-deshi devido à minha conexão com Abe Sensei. Eu pensei que essa era uma boa mudança no meu estilo de vida… Uma oportunidade de estabelecer meu caráter. Obviamente, como outros garotos, você quer ser um herói, ser forte, entende? Essa foi minha motivação para iniciar o Aikido.

Você poderia nos contar mais sobre seu tio e seu grupo de uchi-deshi? Qual era a situação?
Não me lembro de muitos detalhes, mas o pai de Abe Sensei respeitava O-Sensei e o dava suporte financeiro. O Sr. Abe era muito dedicado a O-Sensei. Acho que era na época que o Doshu era jovem. Abe Sensei e Doshu eram da mesma idade. Claro que Koichi Tohei estava lá. Eles eram todos da mesma geração. Pessoas como Saito Sensei estavam por ali também, mas acho que ele era um pouco mais jovem.

Creio que Abe Sensei foi o primeiro, antes mesmo do Tohei, a ir para outro continente para apresentar o Aikido. No caso, a França. Naquele tempo, era muito difícil para os japoneses viajarem para fora do continente. Ainda estávamos sob ocupação americana e não era fácil viajar, mas ele conseguiu usando as conexões de seu pai com certas pessoas VIP.

Eu acho que foi muito difícil para ele, obviamente, porque ninguém sabia o que era Aikido. Naquela época, como todo mundo, ele tinha que misturar um pouco de judô e então mostrar o Aikido. Sua filosofia principal não era difundir o judô, é claro, mas ele provavelmente teve que usar pessoas do judô, como aconteceu comigo. Tive de usar judocas e caratecas para fazer demonstrações no início. Não havia mais ninguém.

E claro, Abe e Tohei Sensei eram como irmãos, sabe? Então eles brincavam como irmãos… Lutando… Não exatamente lutando, mas você sabe, eles tinham uma certa rivalidade.

Aconteceu alguma coisa entre eles dois em algum momento?
Bem… Sim. Bom, eu vou contar. Você sabe que Tohei Sensei era muito forte, e sempre que Abe Sensei o desafiava, era derrotado. Uma vez… Foi quando eu estava no ginásio, talvez até antes, e naquela época Tohei estava em Osaka, tomando conta do Dojo de lá ou algo assim. Isso foi logo antes de Abe Sensei ir para a França, então Abe quis desafiá-lo mais uma vez. Bem, Abe Sensei achava que não havia como pegá-lo com o Aikido, e de forma alguma com judô. Ele estava freqüentando a universidade na época e ingressou na academia de wrestling deles. Então ele estudou um pouco de luta e técnicas de chão e ele me disse, “Dessa vez eu posso pegá-lo”. E me levou com ele, como testemunha.

Eu estava sentado sozinho no dojo de Osaka. Tohei Sensei estava com um gi normal de Aikido e hakama, no meio do tatami. Abe Sensei estava com sua roupa de ginástica e meio que o cercando. Ele estava brincando com Tohei sobre seu treinamento de luta, e de repente ele tentou pular nele, com seus braços à sua volta, sabe, como luta Greco-romana,
Agarrando, segurando, mas nada funcionava (risos)! Ele não conseguia pegá-lo de jeito nenhum. Depois disso, no trem a caminho de casa, eu disse para meu tio “Eu pensei que VOCÊ fosse o homem mais forte do mundo”. Ele ficou tão bravo (risos). Logo depois ele foi para a França.


Seminário de Tohei sensei em 1965, na Flórida. O uke é Yamada Sensei.

Quanto tempo ele ficou na França?
Não sei. Bastante tempo. Uns 10 anos, mais ou menos. Ele voltou quando eu ainda era uchi-deshi. Quando ele retornou e me viu como uchi-deshi, ele ficou muito feliz.

Antes de se tornar uchi-deshi você considerava outra carreira, ou você sempre achou que iria fazer Aikido?
Não, eu nunca achei isso, nunca pensei no Aikido como uma forma de ganhar a vida. Ninguém pensava, nem Kanai Sensei… Nenhum de nós achava que poderia viver ensinando Aikido. Estávamos felizes apenas por ter condições de praticar.

Qual sua idade quando começou?
17 ou 18… Não tenho certeza. Provavelmente, 18.

Você poderia nos contar um pouco sobre o Hombu dojo na época em que você começou?
Bem, o dojo na época era uma construção mais antiga do que a que você vê hoje. Era um típico dojo de madeira, bonito, com apenas um andar. Como um dojo ele era bom. Ele estava conectado à casa da família Ueshiba, e nós todos dormíamos no tatami, portanto obviamente todo dia você tinha que levantar porque estava dormindo onde as pessoas tinham aula. Nos foi concedido um quarto pequeno na parte da família Ueshiba para que todos puséssemos nossos pertences. Era uma bagunça.

Quando entrei, Arikawa Sensei e Tamura Sensei estavam lá. Havia também um cara, o Sr. Noro, que tinha seu próprio tipo de sistema, tinha eu, o Chiba, Kanai e Sugano. Claro, havia muita gente que entrava e saía, mas basicamente era aquele grupo. Tada Sensei e Yamaguchi Sensei já davam aulas regulares, e acho que Tamura também. Alguns senseis tinham uma ou duas aulas.

Naquele tempo, Tohei Sensei era o instrutor chefe e depois que entrei, ele foi para o Havaí. Ou eu entrei quando ele estava no Havaí, não me recordo exatamente. Mas enfim, foi na época em que havia uma ligação com o Havaí.

Como era o horário no Hombu Dojo naquela época?
Ainda me lembro claramente. As aulas da manhã eram das 6h30 às 7h30, e das 8h às 9h, então eles não abriam até a aula da tarde das 4h às 5h e das 6h30 às 7h30. Então, no período entre as aulas regulares, havia muitas aulas particulares que as pessoas compravam com, por exemplo, o instrutor chefe Koichi Tohei. Todos nós tínhamos que estar à disposição para fazer ukemi nessas aulas, porque as pessoas ricas pagavam muito bem por essas aulas particulares. Naturalmente, todo o dinheiro ia para a subsistência da sede.

E quanto aos alunos em geral, não os uchi-deshi. Parece que havia muitas aulas particulares. Quantos alunos havia na época? Que tipo de pessoa estava praticando?
Bem… No Japão da época o Aikido ainda não era muito conhecido. Poucas pessoas sabiam a respeito. Eles não faziam propaganda, não havia demonstrações públicas. Agora temos a “Demonstração de Aikido de Todo o Japão” todo ano. Ainda me lembro da primeira, porque O-Sensei não lhes deu permissão para fazer aquilo.

Quem organizava isso?
Depois que o Doshu assumiu, é claro, houve sugestões de várias pessoas. Você entende, tinha que haver uma mudança. Não eram mais os velhos tempos. Acho que o Doshu convenceu O-Sensei de que deveríamos mostrar isso ao público, mas ele não queria. Eu ouvi dizer que nos velhos tempos basicamente, todos os artistas marciais não queriam mostrar suas técnicas aos outros… Como eles sacavam a espada, o que for… Eles não queriam mostrar para ninguém. Eles apenas ensinavam determinados alunos, porque não queriam que o inimigo visse.

É por esse motivo que, naqueles tempos, se você selecionasse pessoas como alunos, você precisava de uma apresentação primeiro. Mas isso mudou, assim como nosso dojo se abriu para o público. Qualquer um poderia ingressar. Mas só então começamos a fazer demonstrações públicas. Não era tão organizado lá naquele tempo, sem escritório, sem local para inscrição.

As pessoas que ingressavam vinham e abriam as portas de entrada da família Ueshiba. Sempre que ouvíamos alguém chegar durante as aulas, um de nós pulava à frente para ver quem era e recebê-los… “Posso ajudar?” Havia apenas uma mesinha pequena onde eles assinavam para se registrar. Não era tão organizado…

O-Sensei acabou se ajustando à nova idéia de se abrir para o público?
Acho que sim… Acho que ele não tinha opção. Eles precisavam fazer algum dinheiro.

Como era treinar com O-Sensei?
(continua…)

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6 Responses to “Entrevista: Yamada Sensei (parte 1)”

  1. Marita
    Nov 24, 2009

    Muito bacana essa entrevista! Quem fez a traducao?


  2. admin
    Nov 24, 2009

    Gostou, é? Em breve, as partes 2 e 3! A tradução é da Cris. =)


  3. [...] Nota do editor: Esta é a segunda parte da entrevista com Yamada Sensei que aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. Aqui, com seu jeito caracteristicamente franco e alegre, Yamada Sensei relembra seus dias como uchi-deshi no Hombu Dojo. (para ver a primeira parte da entrevista, clique aqui). [...]


  4. [...] Sensei relembra seus dias como uchi-deshi no Hombu Dojo. (para ver a primeira parte da entrevista, clique aqui; para ver a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online, clique [...]


  5. [...] os Estados Unidos, em 64 e da separação de Koichi Tohei do Aikikai. (você também pode acessar a primeira parte da entrevista, a segunda parte e a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online). [...]


  6. [...] Hampshire. A tradução, como nas outras, é da Cris. Se você não leu as outras partes, acesse: a primeira, a segunda e a terceira. É isso. Feliz aniversário, [...]



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