“Todos temos um espírito que pode ser aprimorado, um corpo que pode ser treinado de alguma forma e um caminho apropriado a seguir.” (Morihei Ueshiba)
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Critérios de avaliação

Conforme falei anteriormente, aí vão os critérios básicos de avaliação para cada graduação até shodan (faixa preta 1º grau) no Senshin Dojo. Lembrando, claro, que esse critérios são cumulativos. Ou seja, no exame de 3º kyu, por exemplo, você estará sendo avaliado com base nos critérios de 5º, 4º e 3º kyus, e assim por diante.

5º kyu – Coordenação motora
Você pratica há alguns meses e queremos ver se você compreendeu as movimentações básicas, as direções e o desenho de cada técnica.

4º kyu – Postura
Você consegue mostrar os atributos do exame de 5º kyu e ainda manter o equilíbrio e uma postura ereta, firme e relaxada?

3º kyu – Fluidez
Aqui, queremos constatar que você é capaz de fazer as técnicas de forma contínua e natural.

2º kyu – Precisão
Hora de mostrar que você pode controlar a distância de forma segura, estando no lugar adequado e no momento certo (timmimg).

1º kyu – Repertório
Queremos que você nos mostre tudo o que aprendeu desde o início, só que agora as técnicas são livres e sua capacidade de improvisar e reagir a estímulos vão te ajudar bastante.

1º dan – Personalidade
Finalmente, no exame para a faixa preta, nossa expectativa é que sua personalidade comece a aparecer mais em suas técnicas. Até aqui, seu trabalho foi baseado em repetir o que seus instrutores fazem. A partir de agora, você já deve ter condições de incorporar às técnicas suas próprias soluções, seu próprio jeito.


A dificuldade em se ver uma técnica e repeti-la.

Quando você entra num dojo pela primeira vez e vê o instrutor mostrando algo e, em seguida, as pessoas praticando, as coisas realmente parecem simples. Se, eventualmente, há um aluno com dificuldades, o espectador tende a se perguntar sobre o porquê do sujeito não conseguir repetir algo tão óbvio. Claro que essa sensação muda quando passamos de espectadores a praticantes e começamos a compreender a quantidade de trabalho e esforço que alguém teve para que aquilo parecesse fácil.

De qualquer forma, vejo algumas direções a seguir.

Primeiro de tudo, é importante praticar o básico com regularidade e insistência. Parece simplório, mas ajuda muito.

Por exemplo, há 4 movimentações básicas no aikido: kaiten, irimi, tenshin e tenkan. Se isso estiver claro para a sua mente (e para o seu corpo), fica muitíssimo mais fácil você entender as combinações e derivações. Mas, em vez disso, muita gente encara cada técnica de aikido como uma coisa nova e única. Ora, o que há são elementos básicos que, uma vez misturados, resultam em coisas diferentes. Mas os ingredientes são (quase) sempre os mesmos! A grande maioria dos diferentes pães que você já comeu são feitos com farinha de trigo, fermento, água e sal. Ou seja, os mesmíssimos ingredientes, quando misturados de forma diferente reproduzem resultados diversos. Pense nisso por alguns segundos antes de ler o próximo parágrafo.

Aposto que você não pensou e veio direto pra cá… E isso tem tudo a ver com este segundo ponto. Tente não pular etapas. Derrubar o uke pode ser a parte mais divertida da técnica, mas também é a última parte. E, geralmente, a parte mais fácil. Mesmo assim, muita gente foca somente nisso, deixando pra trás toda a construção da técnica que leva ao arremesso final. Na minha opinião, existe uma ordem lógica para que se execute uma técnica. Não se trata de uma regra, nem tampouco de uma verdade absoluta. É apenas a forma como eu encaro isso. Outros instrutores podem pensar de forma diferente. Eis o meu jeito:

  1. Tai Sabaki (movimentação de pés). Basicamente, antes de tentar fazer funcionar ou fluir, entenda as direções. Desconstrua a movimentação. Fica muito mais fácil quando, em vez de decorar um monte de movimentos complicados, você simplesmente entende que é: kaiten > irimi > outro kaiten > tenkan.
  2. Se os seus pés já sabem onde devem ir, agora é a vez dos braços e mãos.
  3. Agora tente relaxar e fazer de forma mais fluida e contínua. Fica mais fácil lapidar a partir daí.
  4. Como está sua postura? E a distância (ma-ai)? Como você está estabelecendo contato (de-ai)? Você está vulnerável?
  5. Okay, agora você já comeu todos os seus vegetais e tem direito à sobremesa. Hora de projetar o uke e de tentar “fazer funcionar”. Divirta-se.
  6. Passou pelas 4 etapas? Ótimo, agora, sistematicamente, passe por todas elas novamente. Faça isso uma, duas, dez, dez mil vezes, sempre tentando perceber algo novo. Divirta-se em cada uma das vezes.

“Ah, Tharso… Mas então eu devo ficar treinando cada um desses aspectos separadamente e só quando eu estiver bom em tudo é que eu posso concluir a técnica?”

Por favor, não me entenda errado: não acho que você só deve derrubar seu parceiro depois de dominar cada ponto anterior. O que quero dizer é que o foco do seu treino deve estar de acordo com o que você é capaz de absorver em cada momento. Se você quiser fazer seu aikido “funcionar” (no sentido de defesa pessoal) logo no início, sua experiência será frustrante. Mas, se em vez disso, você entender que há um longo caminho até essa “eficácia”, cada etapa fica bem mais estimulante e divertida. Experimente passar pelos passos que propus sem se cobrar muito no início, lembrando que esses passos são cíclicos. Ou seja, a ideia é sempre passar pelos mesmos aspectos, melhorando-os a cada vez.


Entrevista: Yamada Sensei (parte 4 – final)

Hoje, 17 de fevereiro, é aniversário de nosso mestre, Yamada Sensei. Em comemoração, estou publicando a 4ª e última parte da entrevista dada a Peter Bernarth e David Halprin durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. A tradução, como nas outras, é da Cris. Se você não leu as outras partes, acesse: a primeira, a segunda e a terceira. É isso. Feliz aniversário, Sensei.

Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
Sim. Não agüento quando as pessoas não treinam pra valer… Por que vêm? Sempre falo pra mim mesmo que se não conseguir me movimentar mais como quero, fisicamente, eu simplesmente paro. Só porque fico mais velho e talvez não me mova tão bem… Não é motivo para mudar meu estilo. Se eu me vir fisicamente em deterioração, eu paro. Não quero mudar, negando a importância de treinar arduamente, “Oh, assim não, você tem que treinar com suavidade”.

Não quero que as pessoas treinem de acordo com minha idade ou condição. Não vou fazer isso. Eu simplesmente paro. Acontece… As pessoas não se movimentam como costumavam e começam a negar o fato. Não quero que isso aconteça comigo. As pessoas dizem, “Não vá naquele dojo. Você não tem que treinar de forma tão severa. É preciso ser suave.” Mas na verdade eles falam isso porque não conseguem fazer como deveria ser feito. Ou você escuta alguém falando “O-Sensei nunca fez um koshinage”. Isso é idiotice. Só falam isso porque não conseguem fazer… Começam a negar.

É claro que conforme você envelhece, precisa de algum ajuste, mas ainda assim pode manter a pureza, a postura sólida, a técnica limpa, clara. Você deve manter isso sempre. Não precisa ser desleixado. Olhe para o Osawa sensei. Ele não era desleixado mesmo sendo velho. Ainda tinha bom equilíbrio. Essa é uma das razões pelas quais o admiro e respeito, porque na idade dele, ainda era forte.

Na época que Tohei Sensei estava se desligando, você achou que aquela abordagem do tipo Ki se tornaria mais popular?
Não pensei isso, mas ainda assim, estaria tudo bem. Esclarece as diferenças. Por isso fico feliz que ele a tenha chamado de Ki Society, que não tenha usado o Aikido no nome de seu estilo.

Sabe, depois que Tohei Sensei falecer, não acho que alguém consiga fazer o que ele fez. Você não pode aprender algo assim apenas pensando assim. Não dá. Lembre-se, na época que ele se desligou, ele era fisicamente muito forte. Tinha uma boa técnica, vigorosa. As pessoas o viam fazendo demonstrações… E ele os convencia de que estava apenas usando o Ki, mas na verdade ele era muito forte.

Há muitas federações de Aikido hoje…
Isso é positivo. Nossa federação é importante para nós por alguns bons motivos. Pela união, para compartilhar idéias… Mas por outro lado me alegro de ver outras federações. É impossível esperar que todo mundo trabalhe junto. Eles têm idéias diferentes.

Nossos membros gostam de mim e Kanai Sensei e dos outros Shihan pessoalmente, e gostam de nosso Aikido. Ótimo. Se as pesssoas querem se juntar a nós porque gostam da nossa técnica, bem. É assim que somos. Por isso temos menos problemas do que outras organizações, porque vocês não estão envolvidos politicamente.

Essa é a reazão pela qual fazemos do jeito que fazemos. O principal é que vocês continuem praticando, é só o que precisam. Não precisam entrar em conflito com os outros. Vocês estão aqui principalmente para praticar, certo? Por isso as pessoas, principalmente na Europa, nos invejam. Dessa forma há mais tempo para treinar ao invés de toda hora ter que ir a reuniões.

Você ficou surpreso quando o Aikido começou a crescer tanto?
Sim e não. Acho que nem mesmo o O-Sensei imaginava que iria se tornar tão popular no mundo todo. Por outro lado, acredito que houve boas razões para o público ter aceitado o Aikido.

Por que ele se tornou tão popular?
Bom, várias razões… O aspecto espiritual é uma razão, claro, mas na verdade simplesmente por causa dos movimentos do Aikido. Todo mundo tem o desejo de estabelecer contato físico… Mas o judô talvez seja muito bruto, com muita luta e no karatê você não tem contato físico a não ser que esteja sparring. No Aikido há certo contato físico, mas com movimentos fluidos. Você aprecia o treino… Estabelecendo contato físico. É uma sensação boa. Às vezes, você se machuca, ou às vezes, machuca alguém… Mas isso te deixa feliz (risos).

É engraçado, na sua cabeça você acha que gostaria de bater em alguém. No Aikido você de fato tem esse contato físico. Você os arremessa no chão ou faz uma chave e fica satisfeito. Claro que no judô a história é diferente. Se quiser competir, não é fácil. Nem todos conseguem. É preciso excelente forma física. É difícil se você é mais velho ou pequeno. O Aikido está mais no meio. Você pode fazer como lhe agradar. Vigoroso, suave, como quiser. Acho que por isso ele é tão popular, porque as pessoas têm satisfação, independentemente de sua condição física ou limitações… E é efetivo.

Você poderia falar um pouco sobre a importãncia de sua relação com o Hombu dojo e os outros uchi deshi? Você freqüentemente traz shihans do Japão e outros paises para nossos seminários. Por favor, explique sobre os contatos com o Hombu agora e a manutenção das relações com aqueles professores.
Bom, como você sabe, tem havido alguma desavença quanto a certos assuntos, chegando às vezes a parecer uma Guerra Fria. Mas não sei, talvez estejamos exigindo muito deles, entende? Eles têm suas próprias situações e considerações. Isso é compreensível. Eles cometeram alguns erros conosco, os quais eles mesmos admitem atualmente. Eles têm suas desculpas, suas próprias circunstâncias. Entendo que é difícil porque sei como é. Quando você é o chefe há certas responsabilidades. Portanto, algumas coisas eu compreendo, porque embora esteja lidando numa escala diferente, também estou nessa condição, porém, algumas coisas têm que ser corrigidas.

Mas independentemente do que tenha acontecido, nós permanecemos conectados. Esse é um ponto interessante na sociedade do Aikido, temos um forte background, uma forte conexão com a família do fundador. Só no Aikido. No judô eles já a perderam. Quem se importa com a família Kano hoje?

E quem sabe… No Aikido pode acontecer a mesma coisa. Uma geração depois da nossa talvez eles nem saibam quem é Ueshiba. Não acredito que todo dojo coloque a foto de Moriteru. Duvido. Mas que posso fazer? Tento manter esse tipo de tradição e conexão. Uma linha direta. Por isso em todo Summer Camp tentamos convidar aqueles que estão trabalhando na instituição central, no Hombu.

Talvez parte do problema seja que nós todos fomos embora de lá. Eu, Tamura, Kanai, Chiba, Sugano. A nova geração não conheceu O-Sensei. Portanto, para a geração mais nova, talvez seja importante mantermos contato com eles, ensinar-lhes a história, como era com o O-Sensei no dojo naquele tempo. Houve um “gap” entre a segunda e a terceira geração. Fomos todos embora. Sentimos-nos meio culpados por isso. E isso nos traz a responsabilidade de manter o contato.

O mundo do Aikido parece ter crescido imensamente através dos anos. Hoje, todos vocês shihans, que partiram, possuem grandes organizações de Aikido fora do Japão. Muito da experiência do Aikido está agora fora do Japão. Você vê formas nas quais os Shihans internacionais possam colaborar com o Hombu dojo hoje e compartilhar suas experiências ?
É uma questão de confiar um no outro.

Em sua recente viagem ao Japão, em maio, você deu uma aula no Hombu dojo.
Aquela foi a primeira vez. A primeira vez que um de nós, shihan, deu uma aula regular lá, desde que saímos do Japão.

Você espera que esse tipo de coisa comece a acontecer com mais freqüência?
Quando eu estava falando com eles antes e depois da aula, disse que esperava ser essa a primeira de muitas oportunidades, tanto para mim quanto para os outros shihan. Senti ter aberto uma nova ponte e, de agora em diante, quando meu Sempai ou meu Kohai voltarem, espero que eles tenham a mesma oportunidade.

Dessa forma o conhecimento poderia ser comparttilhado.
Isso.

Você poderia falar um pouco sobre o Shihankai que foi formado recentemente?
Alguns fatos importantes… Claro, somos todos indivíduos diferentes, com diferentes formas de pensamento, diferentes formas de ensinar as pessoas, diferentes estilos de Aikido. Mas, se algo acontecesse a nós, algum conflito, acho que os alunos seriam os que iriam sofrer, porque, vamos supor que eu e Chiba Sensei tenhamos uma discussão e decidamos não trabalhar mais juntos. Nossos alunos são os que irão sofrer.

É importante estarmos juntos, não só pelo nosso benefício, mas pelo de todos, dos alunos. É importante que estejamos trabalhando juntos de alguma maneira, mostrando que temos boas relações, ao invés de ficar brigando. Porque nesse caso vocês serão forçados a tomar uma decisão. Como eu e Kanai Sensei. Se algo acontecesse entre nós, haveria separação completa. E vocês teriam que tomar uma decisão, fazer uma escolha. Isso é péssimo.

Por isso o Shihankai é uma coisa boa. Não por razões políticas, mas por amizade, por trabalharmos e aprendermos juntos. Cada um de nós tem uma maneira diferente de ensinar aos alunos, filosofias diferentes. Especialmente pelo tamanho de nosso país, tão grande. Não conseguimos manter muito contato entre todos hoje. Portanto, é bom trabalharmos juntos, fazer seminários um com o outro.

Então o Shihankai foi formado como uma maneira de dar continuidade à amizade e criar comunicação positiva?
Acho que sim. Idealmente, seria bom se todos os shihan se juntassem com freqüência e fizessem seminários. Seria muito bom. Mas de novo, por causa do tamanho de nosso país, é difícil. Em um país como a França é possível. Eles se reúnem com Tamura, todos os shidoins, mas aqui não é assim. Financeiramente, economicamente, nem todos podem se dispor facilmente.

Algumas vezes os shihan se reúnem como um grupo.
É, isso é bom. Como na celebração dos 30 anos do New York Aikikai na Colgate University. Vez ou outra, conseguimos juntar pessoas suficientes para apoiar esse tipo de evento. Foi ótimo.

É um grande benefício para seus alunos poderem treinar com todos vocês pelo menos uma vez.
É bom mostrar aos alunos que todos os shihans estão trabalhando bem unidos.

Uma coisa que sempre foi positiva é que mesmo tendo um professor principal, como Kanai Sensei ou você, nós também tivemos a oportunidade de passar bastante tempo aprendendo com os outros shihans, como Sugano Sensei, Chiba Sensei e Tamura Sensei. Tivemos o benefício de muitos professores e essa tem sido uma grande experiência para nós.
É bom. Vocês têm muita sorte.

Mas também foi importante para nós saber que era de um só professor que aprendíamos os fundamentos.
Isso é importante para que vocês não fiquem confusos.

É assim também que você vê isso?
É. Você pode ter a oportunidade de roubar algo bom de todos, mas seus fundamentos devem ser do seu próprio professor no dia a dia.

É esse um dos motivos pelos quais, por muitos anos, desde o início na verdade, você trouxe professores do Hombu?
Sim. É uma oportunidade para que eu mantenha boas relações com outros shihans. Se eu começar a ficar muito presunçoso, tipo não preciso de ninguém ou quero ser o chefão e coisa assim, o que irá acontecer? Suas oportunidades vão ficar limitadas. É por eu ter boas relações com Tamura Sensei que ele vem a Nova York ou ao Summer Camp.

Em troca, ganho a oportunidade de ir ao Summer Camp deles. É bom ter diversidade, mais oportunidades aparecem em um nível internacional, global. Porém, se eu estabelecer somente minha família, no gênero “não preciso de nenhum outro shihan”, por ter inveja deles ou coisa parecida, é péssimo. Sua habilidade de aprender fica limitada. É um mundo pequeno e acredito que devamos permanecer unidos.

Essa atitude parece ter sido benéfica. A qualidade de seus alunos é alta… Falando de nós mesmos!
Isso porque você foram expostos a bons professores. Naturalmente, tenho que julgar quem eu considero bom. Não vou convidar alguém que não é bom só porque é um amigo. Eu não faria isso. É desperdício de dinheiro e tempo. Mesmo não gostando particularmente de um shihan, eu o convidaria se achasse que é benéfico para vocês.

Como você vê o futuro, Sensei?
Bem, vocês é que me dizem, vocês são o futuro… (risos)

Como você gostaria que fizéssemos as coisas no futuro ou que direção você gostaria que tomássemos?
Só não quero que vocês se percam. Quero que saibam para onde ir. Não importa qual o argumento, continua sendo importante manter uma conexão com o dojo central, independentemente de quem estiver lá, porque aquilo é o que o publico vê. Essa é nossa organização, não interessa. É de lá que vêm nossos certificados.

Se algum dia tomarmos a decisão de romper com a instituição central será porque nos preocupamos com seu futuro. Mas não sei se seria uma boa decisão. Por exemplo, se ficássemos independentes e emitíssemos nossos próprios certificados da graduação de Dan. Enquanto estivermos aqui tudo bem, mas e depois de nós, o que irá acontecer? Mais tarde, as pessoas dirão, “O que significa esse certificado? É só um pedaço de papel.” Mas se ele vier da organização central, tem um valor inerente. Tem uma tradição.

É por isso que na Europa há dois testes para graduação de Dan. Um nacional e um da instituição central. Eles criaram o nacional, mas os alunos ainda querem fazer o exame Aikikai e pegar o certificado Aikikai. Essa é a realidade. As pessoas dão valor a essa conexão com a central. Não sei o que acontecerá depois que nos retirarmos. Veremos o que vai acontecer. Sei que vocês provavelmente continuarão a trabalhar junto com seus amigos na nossa organização aqui nos Estados Unidos e fora.

Você nos daria algum conselho quanto a essa situação?
A solução? Tenho que permanecer jovem. Tenho que viver muito. (risos)

Parece que já existe uma conexão sólida entre os alunos dos shihan internacionais. As pessoas freqüentemente viajam para seminários de outros grupos. Muitos shidoins estão ensinando internacionalmente. As relações já estão se formando entre os instrutores mais jovens. Parece que nosso futuro já está preparado e que iremos manter essa conexão. A forma como todos vocês têm trabalhado juntos tem sido passada para a nossa geração.
Acho que há amizades fortes no grupo que irão manter um elo. Espero que tenhamos construído algo que perdure. Mas nunca se sabe. Nem sei exatamente o que vai acontecer no meu próprio dojo quando eu me for. Quem ficará encarregado? Tentarei não deixar nenhum conflito, não sei como, mas é da natureza humana ter diferenças. Talvez algumas pessoas briguem pelo dojo.

O Havaí é um bom exemplo. Eles brigaram para ver quem poderia usar o dojo. Aquele dojo pertencia aos membros e eles acabaram brigando para decidir quem poderia usá-lo. O New York Aikikai também pertence aos membros. Portanto podem surgir problemas. Seria diferente se eu tivesse um filho que assumisse, como na família Ueshiba. Mas meu filho não está envolvido com Aikido, então fica difícil prever o futuro no que se refere à nossa federação. Poderia haver uma cisão, mas ainda assim haveria uma boa parte de vocês que permaneceria unida e manteria a ordem. Não sei quantos, não sei quem exatamente, mas acho que incluiria vocês David e Peter, Claude (Berthiaume), e Harvey (Konigsberg).

Acho que isso é algo que já deveríamos começar a pensar de alguma forma.
Sim. De agora em diante quero passar mais tempo fazendo isso. Pensando em como manter vocês e a organização unida. Por isso quero estabelecer uma comunicação direta entre vocês e a instituição central, para o futuro. Não importa o que aconteça, vocês precisam manter comunicação com o dojo central. Aonde mais vocês iriam quando fossem ao Japão? O sonho de todo mundo é ir ao Japão e treinar no Hombu Dojo. Não há como negar isso.

Você acha que o Hombu dojo está tentando manter uma boa conexão conosco também?
Sim, acho que eles estão vendo a importância disso e também estão tentando. Eles se preocupam com sua relação comigo e com os outros shihan. Nós conversamos sobre esses assuntos. Se eles cometem um erro, devemos abordá-los diretamente. Temos que ter capacidade de dizer ‘não’ se discordarmos.

Escrevi em um artigo que, sendo um líder, você deve ter pessoas que possam lhe dizer ‘não’. “Olha, sensei, isso está errado. Não acho que é boa idéia.” É importante que haja essas pessoas e você deve escutá-las. Não se está sempre certo. Eu cometo erros. Como o Peter, às vezes você vem e diz alguma coisa quando discorda de mim. Não me importo, se acho que a idéia é boa vou com você. Se não concordo, te mando pro inferno! (risos)

Sensei, queremos lhe agradecer por essa entrevista. Cobrimos vários assuntos diferentes. Foi meio livre, sem direção determinada.
Acho que um elemento importante aqui é fazer com que o público saiba quem e o quê nós somos. Falar francamente. Dizer que há alguns grupos que estão no caminho certo. Nesse momento, muita gente está perdida. Há tanta porcaria por aí. Eles não sabem onde encontrar o verdadeiro Aikido. Dessa forma, pelo menos, eles têm alguma informação para tomarem sua decisão. Foi uma boa idéia. Sempre estarei disponível para entrevistas como essa.


Qual a cor da sua faixa?

Dia desses, me perguntaram sobre graduação e também sobre o porquê de usarmos apenas faixas brancas e pretas no Senshin.

Bem, em primeiro lugar, é preciso contextualizar: Na maior parte do mundo (incluindo EUA, Japão e Europa), usa-se apenas faixas brancas e pretas. Portanto, quem usa faixa colorida é que é “diferente”. No Brasil, todavia, esse é o padrão. A maioria dos dojos tupiquinins adotam o sistema (faixas coloridas) talvez como uma forma de estímulo aos alunos.

O fato é que quando abrimos o dojo, em 2002, o fizemos sob supervisão do sensei Ricardo Leite e ele, desde que criou sua própria organização (Bushinkan), optou por não usar cores. Além disso, somos filiados a Yoshimitsu Yamada Sensei, um dos mestres mais respeitados do mundo, que também nunca usou o sistema de faixas coloridas.

De qualquer forma, eu e Clauber fomos iniciados no aikido usando cores. Talvez por isso, confesso que no primeiro momento ficamos apreensivos sobre como os alunos reagiriam, mas pouco tempo depois percebemos que a reação era bastante positiva na grande maioria dos casos.

Sem nenhuma intenção de criticar dojos que usam faixas coloridas, mas enfim, o que penso sobre esse assunto após quase 8 anos usando o sistema PB é que:

  1. O sistema de faixas branca/preta trata os alunos como iguais e, principalmente, como adultos. Quem precisa de uma faixa amarela pra sentir-se estimulado a treinar?
  2. Faixas coloridas dão uma estranha e falsa sensação de que uns são mais que outros, quando na verdade, graduação é o que menos importa quando se está praticando.
  3. A estética japonesa preza bastante o minimalismo e o aikido herda isso por razões óbvias. Branco e preto têm tudo a ver com o Japão e com o aikido.
  4. Acho preto e branco mais bonito. =)

De qualquer forma, utilizamos as graduações universais do aikido. Para quem não sabe, existem kyus e dans. Kyus, as graduações menores (faixas brancas), são decrescentes. Ou seja, o aluno iniciante faz exame para 5ºkyu. Depois para 4º, 3º, 2º e, finalmente, para 1º kyu. A partir daí, sua próxima promoção será para 1ºdan (faixa preta 1º grau).

Os dans são crescentes e vão até o 8º, sendo que até 3ºdan as promoções são baseadas em critérios técnicos. As graduações de 4º a 8ºdan baseiam-se em outros fatores, como tempo de prática, serviços prestados à divulgação do aikido, número de alunos e outros mais subjetivos.

Em breve, falarei aqui sobre os critérios de avaliação para cada uma das graduações. Até breve.


“Sou iniciante. Estou atrapalhando o treino dos outros?”

Chegar num lugar novo onde não conhecemos o protocolo e nem as pessoas sempre causa um certo desconforto, sobretudo para os mais tímidos. Note que não estou falando de aikido, mas de qualquer atividade. Uma das lembranças mais antigas que tenho é do primeiro dia de aula no jardim da infância, quando minha mãe me abandonou deixou na escola sozinho com aquelas pessoas estranhas. Chorei a valer naquele dia, mas, ao final de uma semana, já tinha amigos e até uma namorada (que até hoje não sabe que era minha namorada, claro).

No aikido, é relativamente comum um iniciante achar que está atrapalhando o treino dos mais antigos. Normalmente, esse sentimento dura algumas poucas aulas, principalmente para os mais assíduos. Logo, o novo aluno percebe que as pessoas, em geral, são gentis e conhecem muito bem as dificuldades do começo.

O fato (falo pela minha experiência como aluno e instrutor) é que iniciantes aprendem muito mais rapidamente e de uma forma muito mais divertida quando praticam com alunos mais antigos. Por isso, sou completamente contra a divisão de turmas entre iniciantes e avançados. Além disso, também não sou afeito aos famosos yudanshakais (ou treinos para faixas-pretas), mas vou deixar esse assunto pra outro dia.

A importância de se treinar com iniciantes

Para os mais experientes, variar o tipo de treino é fundamental. Sim, as mesmas técnicas podem e devem ser praticadas com diferentes enfoques (treino lento e bem estruturado, fluido, mais marcial, mais didático…), pois é dessa diversidade de experiências que surge um aikido mais rico e fecundo.

Um desses tipos de treino é, sem dúvida, a prática com iniciantes. Fazer aikido com alguém que não tem vícios e que precisa ser conduzido pelas técnicas, além de ser gratificante, é de uma riqueza ímpar. Faz com que você tenha que formular internamente algumas coisas sobre as quais jamais pensou de modo racional. Faz você entender como alguém responde ao que você faz e à forma como se comunica. Faz com que você, ao tentar entender o outro, entenda melhor a si próprio. E dessa forma, acredite, seu aikido efetivamente melhora.

Para que isso aconteça, ambas as partes (iniciados e iniciantes) têm de estar dispostas e disponíveis. Os alunos antigos podem e devem ajudar, tomando a iniciativa de abordar os mais novos na hora de formar duplas ou grupos no tatame. Não há razão alguma para timidez ao se chamar alguém pra treinar. É mais ou menos como aquela minha namorada do jardim da infância. Uma vez, na festa junina da escola, eu queria dançar com ela, mas ela não sabia que era minha namorada. Daí… Bom, deixa pra lá.


Engate a quinta e acelere (ou: A importância da frequência na prática do aikido)

Nota: Este é o segundo dos 5 assuntos que o Karam pediu que eu abordasse.

Pra quem não sabe dirigir, vou explicar aqui rapidamente*:

  1. Entre no carro,
  2. Acomode-se confortavelmente,
  3. Ajuste os 3 retrovisores de modo que você consiga ver o que se passa à sua volta,
  4. Coloque o cinto de segurança,
  5. Ligue as luzes,
  6. Gire a chave,
  7. Dê seta para avisar que você vai sair,
  8. Olhe à frente,
  9. Olhe também no retrovisor,
  10. Olhe em volta,
  11. Pise na embreagem,
  12. Engate a primeira,
  13. Olhe em volta novamente (nunca se sabe quando um motoboy vai aparecer!),
  14. Acelere,
  15. Torça pro carro não morrer,
  16. Solte a embreagem,
  17. Cuide do volante!
  18. Pise na embreagem novamente,
  19. Engate a segunda,
  20. A esquina está chegando, ligue a seta…

Cara! Dirigir é difícil pra caramba! Requer atenção e ações coordenadas e direcionadas a um monte de coisas. Por isso, nas primeiras vezes em que você conduz um veículo, a coisa parece uma aventura. Depois, com a prática diária, tudo se torna tão natural que você simplesmente para de racionalizar cada ato e dá até pra ouvir uma musiquinha e pensar no menu do jantar.

Nesse aspecto, a diferença entre o ato de dirigir e o de praticar aikido é que você exercita suas habilidades como motorista diariamente… e o faz com uma baita concentração, aproveitando cada momento de aprendizado. Para os motoristas em geral, dirigir todos os dias não é uma opção. E se o cara dirigiu mal hoje, isso provavelmente não o fará ir de taxi amanhã. Já no aikido, você tem uma espécie de contrato consigo mesmo que é renovado a cada vez que você pisa no tatame.

O treino de aikido é baseado em repetição, ou seja, praticamos uma técnica repetidas vezes com a intenção de que nosso corpo aprenda e acostume-se com aqueles movimentos a ponto de torná-los instintivos.

No volante e no aikido as coisas acontecem muito rápido à sua frente. Assim como você freia ou troca uma marcha, o objetivo é que, uma vez que uma determinada situação se apresente, seu corpo reaja de forma natural e instintiva. Mas, para que isso aconteça, esse conhecimento deve estar bem sedimentado aí dentro de você… E a única forma de fazer isso acontecer é treinando, treinando… e treinando.

Assistir a vídeos, ler livros e sites, conversar com outros praticantes ou qualquer forma de exercício teórico de aikido pode te ajudar a expandir seus horizontes, mas nada substitui a prática física. Não adianta mentalizar um movimento 50 mil vezes. Seu corpo precisa executá-lo 50 mil vezes.

Tudo isso, meus caros, pra dizer o quanto a frequência é importante. Especialmente quando essa frequência estiver aliada à concentração. Ou será que você pratica aikido pensando no menu do jantar?

* Se você quer aprender a dirigir, vá à Auto Escola, ok?


Nota de falecimento: Kawai Sensei (28/02/1931 – 26/01/2010)

Foi com grande tristeza que recebi nesta manhã a nota informando o falecimento do shihan Reishin Kawai, 8º Dan, introdutor do Aikido no Brasil. Em nome do Senshin Dojo, torno público nosso pesar e deixo aqui nossa sincera homenagem àquele que deu início ao aikido no nosso país.

Abaixo, trecho da nota oficial:

Lamentamos muito informar o falecimento de Kawai Sensei. Há alguns anos Kawai Sensei foi operado da próstata por conta de um tumor, e também realizava hemodiálise semanalmente. No início desta semana, sofreu um AVC, vindo a falecer na noite de ontem.
O enterro será realizado às 17h no Cemitério de Congonhas, localizado na Rua Ministro Alvaro de Souza Lima, 101, Jardim Marajoara (distante cerca de 3km do Aeroporto de Congonhas, em direção a Interlagos).

Reishin Kawai Sensei (28/02/1931 – 27/01/2010)


Medo de sofrer ou provocar uma lesão

Nota: após meu último post, nosso amigo Karam levantou algumas boas questões às quais comentarei nos próximos dias. Esta é a primeira da série.

A primeira vista, uma arte marcial pode parecer algo perigoso, uma vez que a maioria das pessoas pensa nisso como “pessoas batendo em outras pessoas”. Mas sejamos racionais:

Onde (e com quem) você está?

O dojo é um ambiente controlado, ou seja:

  • Você sabe o que acontecerá a seguir;
  • Você sabe como deve proceder;
  • Seu parceiro de treino não é um inimigo, mas sim um companheiro que está ali para aprender como você e com você.
  • Há um instrutor com experiência, capacidade e responsabilidade que se certifica de que todos têm capacidade para executar os movimentos propostos. E qualquer bom instrutor sabe que segurança precisa ser prioridade no tatame. É ela (a segurança) que faz com que as pessoas voltem dia após dia, pratiquem e evoluam. Além disso, quando todos estão seguros a energia no dojo é melhor.

Com que frequência ocorrem acidentes no aikido?

Em cerca de 15 anos de aikido, vi um único acidente relativamente grave no tatame (causado não por uma agressão, mas por pura distração) e já soube de apenas 2 ou 3 outros acidentes mais chatos.

No mesmo período, perdi as contas de quantos amigos machucaram-se seriamente andando de moto, jogando futebol ou correndo atrás de gaivotas em praias desertas.

Por que acontecem acidentes no tatame?

Já presenciei vários incidentes com pouca gravidade, como estiramentos, dedos quebrados, pés torcidos e coisas assim.

A imensa maioria desses episódios tem uma coisa em comum: ocorreram em momentos de descontração excessiva, e, principalmente, quando os envolvidos “treinavam” depois de terminada a aula.

Ocorre, que, após o término do treino, normalmente o nível de atenção e concentração cai. Além disso, muitas vezes, o instrutor não está mais presente. Creia-me: é quando a bruxa fica solta.

Hummm… Então nunca devo treinar fora da aula?

Você já deve ter ouvido dizer que a maioria dos acidentes automobilísticos ocorre a poucos quarteirões de casa, quando o motorista relaxa e fica desatento. Pois é. Não há problemas em se treinar fora do horário de aula, mas é fundamental que isso seja feito com concentração e segurança (de preferência, na presença de alguém com experiência).

Ainda sobre isso, é interessante notar como toda a formalidade no protocolo do aikido (que para alguns pode parecer meio inútil) leva, naturalmente a um nível de atenção mais elevado. Recomendo que, ao treinar fora de aula, faça todas as reverências e mantenha o protocolo de treino.

Sinto um certo desconforto ao cair. O que há de errado?

Nada. Trata-se do seu corpo em fase de adaptação a novos movimentos. Muitas vezes, um iniciante consegue executar de forma satisfatória um rolamento, mas, mesmo assim, sente um certo incômodo… Ora, rolar no chão é algo que as pessoas, em geral,  não estão acostumadas.

Por mais que eu diga a você o que fazer, nossos corpos são diferentes, nossa consciência corporal e nossos reflexos são diferentes. É absolutamente natural que seu corpo reclame no começo.

Mas acredite: isso não é ruim. Desde que você não esteja se machucando pra valer, esses desconfortos, somados à prática frequente, fazem com que seu corpo descubra a forma ideal para executar cada movimento.

E, quando isso acontecer, vou gostar de cair?

Algumas pessoas acham que é masoquismo, mas a verdade pura e simples é que cair é uma delícia. Receber uma técnica, “voar” com o corpo relaxado por alguns momentos e chegar ao chão sem se machucar é uma verdadeira terapia anti-estresse. E além disso, não há maneira melhor de se aprender aikido do que recebendo as técnicas.

Mas.. e se não me sinto apto a executar um movimento durante a aula?

Comunique sua insegurança ao instrutor. Ele está ali para orientá-lo e protegê-lo, mas não possui poderes que o permitam sentir as suas dores ou medos. Nunca tenha vergonha de se dirigir ao instrutor com uma dúvida ou insegurança referente às técnicas. O tatame não é lugar para esse tipo de coisa. Ali, todos estão fazendo seu melhor para aprender e evoluir. Lembre-se que os mais experientes também já foram iniciantes um dia e passaram por todas essas dificuldades. Eles terão prazer em ajudá-lo.

E quanto ao meu parceiro de treino, como me certificar de que não vou machucá-lo?

Tente sempre entender os limites do seu parceiro e respeite-os. Mantenha a intensidade do treino, bem como a velocidade das técnicas, adequada à experiência dele.

Treine de forma séria e concentrada, mas seja gentil e compreensivo quanto às motivações do seu companheiro, afinal ele está “emprestando seu corpo” para que você possa praticar e se desenvolver. Lembre-se: nem todas as pessoas estão sobre o tatame pela mesma razão, mas todas devem ser respeitadas igualmente.


Fórmula pra ficar bom de aikido

O que faz alguém ficar bom em aikido?
Vou simplificar aqui resumindo tudo a 5 aspectos: frequência, boa instrução, compromisso, talento e sorte.

Frequência

Quanto mais você você treina, melhor. O ideal é treinar todos os dias, desde que, claro, seu corpo aguente isso numa boa. Se você não pode praticar 7 dias por semana, faça como eu: pratique 6. Se não pode 6, tente 5. Ou 4, 3, 2… Se você gosta de aikido e tem a possibilidade de praticar uma única vez por semana, não há problemas. Vá e aproveite ao máximo, mas é claro que sua evolução será mais lenta.

Boa instrução

Há professores ruins que têm alunos bons e há professores ótimos que têm alunos ruins. Mas, sem dúvida, ter um bom professor ajuda e muito. Faz com que você não perca tempo demais errando. Muita gente dedicou a vida a encontrar algumas respostas e se você tiver que fazer isso tudo de novo, simplesmente não vai dar tempo. Um bom instrutor também te deixa quebrar a cabeça às vezes, porque apesar do meu argumento anterior, é ótimo que você seja capaz de procurar suas próprias respostas quando isso for necessário. Por último, um bom instrutor nem sempre é o melhor técnico, mas sempre te dá condições, liberdade e incentivo para que você aprenda, veja coisas diferentes e mantenha sua visão aberta e saudável. O mau professor quer apenas que você fique sob sua asa. O bom professor quer muito que você fique bom.

Compromisso

Este é o aspecto mais importante até agora, porque, de certa forma, engloba os anteriores. O ponto aqui é: se você se propôs a fazer algo, faça de corpo e alma. Compromisso é treinar o máximo possível. É treinar certo, com foco. É buscar boa instrução, ir a seminários, ver o que os outros estão fazendo de bom. É falar menos e fazer mais. É abolir treinos mecânicos, dando mais vida ao seu aikido. É, sobretudo, quando você estiver exausto e começar a ficar desleixado, lembrar-se que fazer de qualquer jeito cansa o mesmo que fazer direito.

Não quero com isso dizer que o aikido tem que ser a prioridade número 1 na sua vida. Você tem sua família, seu trabalho, outras atividades… E é absolutamente legítimo se você considerar o aikido como sua oitava, talvez nona, prioridade. Mas o tema deste artigo é “o que é preciso pra ficar bom” e compromisso é fundamental.

Talento

O mundo não é justo e eu não vou ser hipócrita: é óbvio que talento ajuda… desde que o talentoso faça a parte dele. Mas isso não quer dizer que, para praticar aikido, você precisa ter um dom. Até porque seu talento muitas vezes aflora à medida em que você treina seriamente. Já vi muitos talentosos que nunca ficaram bons… e já vi gente que tinha bastante dificuldade evoluir até níveis bem altos. Uma vez vi sensei Donovan responder com uma certa indignação a alguém que exaltava seu “incrível talento”: “Talento? Eu treino há mais de 40 anos, várias horas quase todos os dias. Não reduza meu suor a talento”. Dizer que alguém é muito talentoso, algumas vezes é uma desculpa para nossa própria falta de empenho. Pense nisso.

Sorte

Tenho um amigo que diz: “Sem sorte, não dá nem pra comer um Sonho de Valsa. O papel gruda, o chocolate derrete, o telefone toca, seu amigo pede um pedaço…”.
É chato, mas é verdade. Não importa em que cidade do Brasil você mora, mas certamente, você sabe o que é futebol. Com certeza já andou chutando bola por aí. Talvez tenha gostado, talvez não. Talvez tenha talento e vontade, talvez não. Agora, se você mora em Inhaúmas, é bem possível que não haja um dojo de aikido por perto (escrevi a primeira cidade que me veio à cabeça. Se houver um super dojo em Inhaúmas, peço que me desculpem e corrijam). É claro que se o cidadão inhaumense (“inhaumense, Tharso?”) tiver o sonho de treinar aikido, ele vai batalhar por isso e tem boas chances de conseguir. Mas quando falo em sorte, penso no cara que teria tudo pra ser ótimo, mas que passará a vida sem nem saber o que é aikido. Você tem que ter a sorte de conhecer aikido, ter um dojo perto, horários compatíveis, encontrar um bom professor num momento em que ainda não tem repertório para escolher um… enfim, há alguns fatores imponderáveis. Mas se você leu este texto até aqui, acho que já superou essa parte.

Povo de Inhaúmas, espero vocês no dojo!


Alô, alô, testando…

Há tempos, eu queria uma câmera pequena e fácil de transportar, que fizesse boas fotos e gravasse vídeo em HD. No fim do ano passado, finalmente dei-me de presente uma Leica D-LUX4, que foi a câmera compacta mais legal que consegui encontrar.

Minha ideia é gravar o máximo de material possível, tanto no Senshin quanto no Tsurugui (pra quem não sabe, atualmente moro em São Paulo e, durante a semana, treino lá).

Ainda estou fazendo testes de luz, posicionamento, configurações etc, mas já deu pra brincar um pouquinho. O resultado do primeiro teste está no vídeo aí embaixo. Foi a aula que dei no Tsurugui no dia 04/01/2010. Como já era esperado, fiz um monte de besteiras: posicionei mal a câmera, esqueci de gravar algumas técnicas… Mas enfim, é um começo. Abração e feliz 2010!


Critérios de avaliação

Conforme falei anteriormente, aí vão os critérios básicos de avaliação para cada graduação até shodan (faixa preta 1º grau) no Senshin Dojo. Lembrando, claro, que esse critérios são cumulativos. Ou seja, no exame de 3º kyu, por exemplo, você estará sendo avaliado com base nos critérios de 5º, 4º e 3º kyus, e assim por diante.

5º kyu – Coordenação motora
Você pratica há alguns meses e queremos ver se você compreendeu as movimentações básicas, as direções e o desenho de cada técnica.

4º kyu – Postura
Você consegue mostrar os atributos do exame de 5º kyu e ainda manter o equilíbrio e uma postura ereta, firme e relaxada?

3º kyu – Fluidez
Aqui, queremos constatar que você é capaz de fazer as técnicas de forma contínua e natural.

2º kyu – Precisão
Hora de mostrar que você pode controlar a distância de forma segura, estando no lugar adequado e no momento certo (timmimg).

1º kyu – Repertório
Queremos que você nos mostre tudo o que aprendeu desde o início, só que agora as técnicas são livres e sua capacidade de improvisar e reagir a estímulos vão te ajudar bastante.

1º dan – Personalidade
Finalmente, no exame para a faixa preta, nossa expectativa é que sua personalidade comece a aparecer mais em suas técnicas. Até aqui, seu trabalho foi baseado em repetir o que seus instrutores fazem. A partir de agora, você já deve ter condições de incorporar às técnicas suas próprias soluções, seu próprio jeito.


A dificuldade em se ver uma técnica e repeti-la.

Quando você entra num dojo pela primeira vez e vê o instrutor mostrando algo e, em seguida, as pessoas praticando, as coisas realmente parecem simples. Se, eventualmente, há um aluno com dificuldades, o espectador tende a se perguntar sobre o porquê do sujeito não conseguir repetir algo tão óbvio. Claro que essa sensação muda quando passamos de espectadores a praticantes e começamos a compreender a quantidade de trabalho e esforço que alguém teve para que aquilo parecesse fácil.

De qualquer forma, vejo algumas direções a seguir.

Primeiro de tudo, é importante praticar o básico com regularidade e insistência. Parece simplório, mas ajuda muito.

Por exemplo, há 4 movimentações básicas no aikido: kaiten, irimi, tenshin e tenkan. Se isso estiver claro para a sua mente (e para o seu corpo), fica muitíssimo mais fácil você entender as combinações e derivações. Mas, em vez disso, muita gente encara cada técnica de aikido como uma coisa nova e única. Ora, o que há são elementos básicos que, uma vez misturados, resultam em coisas diferentes. Mas os ingredientes são (quase) sempre os mesmos! A grande maioria dos diferentes pães que você já comeu são feitos com farinha de trigo, fermento, água e sal. Ou seja, os mesmíssimos ingredientes, quando misturados de forma diferente reproduzem resultados diversos. Pense nisso por alguns segundos antes de ler o próximo parágrafo.

Aposto que você não pensou e veio direto pra cá… E isso tem tudo a ver com este segundo ponto. Tente não pular etapas. Derrubar o uke pode ser a parte mais divertida da técnica, mas também é a última parte. E, geralmente, a parte mais fácil. Mesmo assim, muita gente foca somente nisso, deixando pra trás toda a construção da técnica que leva ao arremesso final. Na minha opinião, existe uma ordem lógica para que se execute uma técnica. Não se trata de uma regra, nem tampouco de uma verdade absoluta. É apenas a forma como eu encaro isso. Outros instrutores podem pensar de forma diferente. Eis o meu jeito:

  1. Tai Sabaki (movimentação de pés). Basicamente, antes de tentar fazer funcionar ou fluir, entenda as direções. Desconstrua a movimentação. Fica muito mais fácil quando, em vez de decorar um monte de movimentos complicados, você simplesmente entende que é: kaiten > irimi > outro kaiten > tenkan.
  2. Se os seus pés já sabem onde devem ir, agora é a vez dos braços e mãos.
  3. Agora tente relaxar e fazer de forma mais fluida e contínua. Fica mais fácil lapidar a partir daí.
  4. Como está sua postura? E a distância (ma-ai)? Como você está estabelecendo contato (de-ai)? Você está vulnerável?
  5. Okay, agora você já comeu todos os seus vegetais e tem direito à sobremesa. Hora de projetar o uke e de tentar “fazer funcionar”. Divirta-se.
  6. Passou pelas 4 etapas? Ótimo, agora, sistematicamente, passe por todas elas novamente. Faça isso uma, duas, dez, dez mil vezes, sempre tentando perceber algo novo. Divirta-se em cada uma das vezes.

“Ah, Tharso… Mas então eu devo ficar treinando cada um desses aspectos separadamente e só quando eu estiver bom em tudo é que eu posso concluir a técnica?”

Por favor, não me entenda errado: não acho que você só deve derrubar seu parceiro depois de dominar cada ponto anterior. O que quero dizer é que o foco do seu treino deve estar de acordo com o que você é capaz de absorver em cada momento. Se você quiser fazer seu aikido “funcionar” (no sentido de defesa pessoal) logo no início, sua experiência será frustrante. Mas, se em vez disso, você entender que há um longo caminho até essa “eficácia”, cada etapa fica bem mais estimulante e divertida. Experimente passar pelos passos que propus sem se cobrar muito no início, lembrando que esses passos são cíclicos. Ou seja, a ideia é sempre passar pelos mesmos aspectos, melhorando-os a cada vez.


Entrevista: Yamada Sensei (parte 4 – final)

Hoje, 17 de fevereiro, é aniversário de nosso mestre, Yamada Sensei. Em comemoração, estou publicando a 4ª e última parte da entrevista dada a Peter Bernarth e David Halprin durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. A tradução, como nas outras, é da Cris. Se você não leu as outras partes, acesse: a primeira, a segunda e a terceira. É isso. Feliz aniversário, Sensei.

Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
Sim. Não agüento quando as pessoas não treinam pra valer… Por que vêm? Sempre falo pra mim mesmo que se não conseguir me movimentar mais como quero, fisicamente, eu simplesmente paro. Só porque fico mais velho e talvez não me mova tão bem… Não é motivo para mudar meu estilo. Se eu me vir fisicamente em deterioração, eu paro. Não quero mudar, negando a importância de treinar arduamente, “Oh, assim não, você tem que treinar com suavidade”.

Não quero que as pessoas treinem de acordo com minha idade ou condição. Não vou fazer isso. Eu simplesmente paro. Acontece… As pessoas não se movimentam como costumavam e começam a negar o fato. Não quero que isso aconteça comigo. As pessoas dizem, “Não vá naquele dojo. Você não tem que treinar de forma tão severa. É preciso ser suave.” Mas na verdade eles falam isso porque não conseguem fazer como deveria ser feito. Ou você escuta alguém falando “O-Sensei nunca fez um koshinage”. Isso é idiotice. Só falam isso porque não conseguem fazer… Começam a negar.

É claro que conforme você envelhece, precisa de algum ajuste, mas ainda assim pode manter a pureza, a postura sólida, a técnica limpa, clara. Você deve manter isso sempre. Não precisa ser desleixado. Olhe para o Osawa sensei. Ele não era desleixado mesmo sendo velho. Ainda tinha bom equilíbrio. Essa é uma das razões pelas quais o admiro e respeito, porque na idade dele, ainda era forte.

Na época que Tohei Sensei estava se desligando, você achou que aquela abordagem do tipo Ki se tornaria mais popular?
Não pensei isso, mas ainda assim, estaria tudo bem. Esclarece as diferenças. Por isso fico feliz que ele a tenha chamado de Ki Society, que não tenha usado o Aikido no nome de seu estilo.

Sabe, depois que Tohei Sensei falecer, não acho que alguém consiga fazer o que ele fez. Você não pode aprender algo assim apenas pensando assim. Não dá. Lembre-se, na época que ele se desligou, ele era fisicamente muito forte. Tinha uma boa técnica, vigorosa. As pessoas o viam fazendo demonstrações… E ele os convencia de que estava apenas usando o Ki, mas na verdade ele era muito forte.

Há muitas federações de Aikido hoje…
Isso é positivo. Nossa federação é importante para nós por alguns bons motivos. Pela união, para compartilhar idéias… Mas por outro lado me alegro de ver outras federações. É impossível esperar que todo mundo trabalhe junto. Eles têm idéias diferentes.

Nossos membros gostam de mim e Kanai Sensei e dos outros Shihan pessoalmente, e gostam de nosso Aikido. Ótimo. Se as pesssoas querem se juntar a nós porque gostam da nossa técnica, bem. É assim que somos. Por isso temos menos problemas do que outras organizações, porque vocês não estão envolvidos politicamente.

Essa é a reazão pela qual fazemos do jeito que fazemos. O principal é que vocês continuem praticando, é só o que precisam. Não precisam entrar em conflito com os outros. Vocês estão aqui principalmente para praticar, certo? Por isso as pessoas, principalmente na Europa, nos invejam. Dessa forma há mais tempo para treinar ao invés de toda hora ter que ir a reuniões.

Você ficou surpreso quando o Aikido começou a crescer tanto?
Sim e não. Acho que nem mesmo o O-Sensei imaginava que iria se tornar tão popular no mundo todo. Por outro lado, acredito que houve boas razões para o público ter aceitado o Aikido.

Por que ele se tornou tão popular?
Bom, várias razões… O aspecto espiritual é uma razão, claro, mas na verdade simplesmente por causa dos movimentos do Aikido. Todo mundo tem o desejo de estabelecer contato físico… Mas o judô talvez seja muito bruto, com muita luta e no karatê você não tem contato físico a não ser que esteja sparring. No Aikido há certo contato físico, mas com movimentos fluidos. Você aprecia o treino… Estabelecendo contato físico. É uma sensação boa. Às vezes, você se machuca, ou às vezes, machuca alguém… Mas isso te deixa feliz (risos).

É engraçado, na sua cabeça você acha que gostaria de bater em alguém. No Aikido você de fato tem esse contato físico. Você os arremessa no chão ou faz uma chave e fica satisfeito. Claro que no judô a história é diferente. Se quiser competir, não é fácil. Nem todos conseguem. É preciso excelente forma física. É difícil se você é mais velho ou pequeno. O Aikido está mais no meio. Você pode fazer como lhe agradar. Vigoroso, suave, como quiser. Acho que por isso ele é tão popular, porque as pessoas têm satisfação, independentemente de sua condição física ou limitações… E é efetivo.

Você poderia falar um pouco sobre a importãncia de sua relação com o Hombu dojo e os outros uchi deshi? Você freqüentemente traz shihans do Japão e outros paises para nossos seminários. Por favor, explique sobre os contatos com o Hombu agora e a manutenção das relações com aqueles professores.
Bom, como você sabe, tem havido alguma desavença quanto a certos assuntos, chegando às vezes a parecer uma Guerra Fria. Mas não sei, talvez estejamos exigindo muito deles, entende? Eles têm suas próprias situações e considerações. Isso é compreensível. Eles cometeram alguns erros conosco, os quais eles mesmos admitem atualmente. Eles têm suas desculpas, suas próprias circunstâncias. Entendo que é difícil porque sei como é. Quando você é o chefe há certas responsabilidades. Portanto, algumas coisas eu compreendo, porque embora esteja lidando numa escala diferente, também estou nessa condição, porém, algumas coisas têm que ser corrigidas.

Mas independentemente do que tenha acontecido, nós permanecemos conectados. Esse é um ponto interessante na sociedade do Aikido, temos um forte background, uma forte conexão com a família do fundador. Só no Aikido. No judô eles já a perderam. Quem se importa com a família Kano hoje?

E quem sabe… No Aikido pode acontecer a mesma coisa. Uma geração depois da nossa talvez eles nem saibam quem é Ueshiba. Não acredito que todo dojo coloque a foto de Moriteru. Duvido. Mas que posso fazer? Tento manter esse tipo de tradição e conexão. Uma linha direta. Por isso em todo Summer Camp tentamos convidar aqueles que estão trabalhando na instituição central, no Hombu.

Talvez parte do problema seja que nós todos fomos embora de lá. Eu, Tamura, Kanai, Chiba, Sugano. A nova geração não conheceu O-Sensei. Portanto, para a geração mais nova, talvez seja importante mantermos contato com eles, ensinar-lhes a história, como era com o O-Sensei no dojo naquele tempo. Houve um “gap” entre a segunda e a terceira geração. Fomos todos embora. Sentimos-nos meio culpados por isso. E isso nos traz a responsabilidade de manter o contato.

O mundo do Aikido parece ter crescido imensamente através dos anos. Hoje, todos vocês shihans, que partiram, possuem grandes organizações de Aikido fora do Japão. Muito da experiência do Aikido está agora fora do Japão. Você vê formas nas quais os Shihans internacionais possam colaborar com o Hombu dojo hoje e compartilhar suas experiências ?
É uma questão de confiar um no outro.

Em sua recente viagem ao Japão, em maio, você deu uma aula no Hombu dojo.
Aquela foi a primeira vez. A primeira vez que um de nós, shihan, deu uma aula regular lá, desde que saímos do Japão.

Você espera que esse tipo de coisa comece a acontecer com mais freqüência?
Quando eu estava falando com eles antes e depois da aula, disse que esperava ser essa a primeira de muitas oportunidades, tanto para mim quanto para os outros shihan. Senti ter aberto uma nova ponte e, de agora em diante, quando meu Sempai ou meu Kohai voltarem, espero que eles tenham a mesma oportunidade.

Dessa forma o conhecimento poderia ser comparttilhado.
Isso.

Você poderia falar um pouco sobre o Shihankai que foi formado recentemente?
Alguns fatos importantes… Claro, somos todos indivíduos diferentes, com diferentes formas de pensamento, diferentes formas de ensinar as pessoas, diferentes estilos de Aikido. Mas, se algo acontecesse a nós, algum conflito, acho que os alunos seriam os que iriam sofrer, porque, vamos supor que eu e Chiba Sensei tenhamos uma discussão e decidamos não trabalhar mais juntos. Nossos alunos são os que irão sofrer.

É importante estarmos juntos, não só pelo nosso benefício, mas pelo de todos, dos alunos. É importante que estejamos trabalhando juntos de alguma maneira, mostrando que temos boas relações, ao invés de ficar brigando. Porque nesse caso vocês serão forçados a tomar uma decisão. Como eu e Kanai Sensei. Se algo acontecesse entre nós, haveria separação completa. E vocês teriam que tomar uma decisão, fazer uma escolha. Isso é péssimo.

Por isso o Shihankai é uma coisa boa. Não por razões políticas, mas por amizade, por trabalharmos e aprendermos juntos. Cada um de nós tem uma maneira diferente de ensinar aos alunos, filosofias diferentes. Especialmente pelo tamanho de nosso país, tão grande. Não conseguimos manter muito contato entre todos hoje. Portanto, é bom trabalharmos juntos, fazer seminários um com o outro.

Então o Shihankai foi formado como uma maneira de dar continuidade à amizade e criar comunicação positiva?
Acho que sim. Idealmente, seria bom se todos os shihan se juntassem com freqüência e fizessem seminários. Seria muito bom. Mas de novo, por causa do tamanho de nosso país, é difícil. Em um país como a França é possível. Eles se reúnem com Tamura, todos os shidoins, mas aqui não é assim. Financeiramente, economicamente, nem todos podem se dispor facilmente.

Algumas vezes os shihan se reúnem como um grupo.
É, isso é bom. Como na celebração dos 30 anos do New York Aikikai na Colgate University. Vez ou outra, conseguimos juntar pessoas suficientes para apoiar esse tipo de evento. Foi ótimo.

É um grande benefício para seus alunos poderem treinar com todos vocês pelo menos uma vez.
É bom mostrar aos alunos que todos os shihans estão trabalhando bem unidos.

Uma coisa que sempre foi positiva é que mesmo tendo um professor principal, como Kanai Sensei ou você, nós também tivemos a oportunidade de passar bastante tempo aprendendo com os outros shihans, como Sugano Sensei, Chiba Sensei e Tamura Sensei. Tivemos o benefício de muitos professores e essa tem sido uma grande experiência para nós.
É bom. Vocês têm muita sorte.

Mas também foi importante para nós saber que era de um só professor que aprendíamos os fundamentos.
Isso é importante para que vocês não fiquem confusos.

É assim também que você vê isso?
É. Você pode ter a oportunidade de roubar algo bom de todos, mas seus fundamentos devem ser do seu próprio professor no dia a dia.

É esse um dos motivos pelos quais, por muitos anos, desde o início na verdade, você trouxe professores do Hombu?
Sim. É uma oportunidade para que eu mantenha boas relações com outros shihans. Se eu começar a ficar muito presunçoso, tipo não preciso de ninguém ou quero ser o chefão e coisa assim, o que irá acontecer? Suas oportunidades vão ficar limitadas. É por eu ter boas relações com Tamura Sensei que ele vem a Nova York ou ao Summer Camp.

Em troca, ganho a oportunidade de ir ao Summer Camp deles. É bom ter diversidade, mais oportunidades aparecem em um nível internacional, global. Porém, se eu estabelecer somente minha família, no gênero “não preciso de nenhum outro shihan”, por ter inveja deles ou coisa parecida, é péssimo. Sua habilidade de aprender fica limitada. É um mundo pequeno e acredito que devamos permanecer unidos.

Essa atitude parece ter sido benéfica. A qualidade de seus alunos é alta… Falando de nós mesmos!
Isso porque você foram expostos a bons professores. Naturalmente, tenho que julgar quem eu considero bom. Não vou convidar alguém que não é bom só porque é um amigo. Eu não faria isso. É desperdício de dinheiro e tempo. Mesmo não gostando particularmente de um shihan, eu o convidaria se achasse que é benéfico para vocês.

Como você vê o futuro, Sensei?
Bem, vocês é que me dizem, vocês são o futuro… (risos)

Como você gostaria que fizéssemos as coisas no futuro ou que direção você gostaria que tomássemos?
Só não quero que vocês se percam. Quero que saibam para onde ir. Não importa qual o argumento, continua sendo importante manter uma conexão com o dojo central, independentemente de quem estiver lá, porque aquilo é o que o publico vê. Essa é nossa organização, não interessa. É de lá que vêm nossos certificados.

Se algum dia tomarmos a decisão de romper com a instituição central será porque nos preocupamos com seu futuro. Mas não sei se seria uma boa decisão. Por exemplo, se ficássemos independentes e emitíssemos nossos próprios certificados da graduação de Dan. Enquanto estivermos aqui tudo bem, mas e depois de nós, o que irá acontecer? Mais tarde, as pessoas dirão, “O que significa esse certificado? É só um pedaço de papel.” Mas se ele vier da organização central, tem um valor inerente. Tem uma tradição.

É por isso que na Europa há dois testes para graduação de Dan. Um nacional e um da instituição central. Eles criaram o nacional, mas os alunos ainda querem fazer o exame Aikikai e pegar o certificado Aikikai. Essa é a realidade. As pessoas dão valor a essa conexão com a central. Não sei o que acontecerá depois que nos retirarmos. Veremos o que vai acontecer. Sei que vocês provavelmente continuarão a trabalhar junto com seus amigos na nossa organização aqui nos Estados Unidos e fora.

Você nos daria algum conselho quanto a essa situação?
A solução? Tenho que permanecer jovem. Tenho que viver muito. (risos)

Parece que já existe uma conexão sólida entre os alunos dos shihan internacionais. As pessoas freqüentemente viajam para seminários de outros grupos. Muitos shidoins estão ensinando internacionalmente. As relações já estão se formando entre os instrutores mais jovens. Parece que nosso futuro já está preparado e que iremos manter essa conexão. A forma como todos vocês têm trabalhado juntos tem sido passada para a nossa geração.
Acho que há amizades fortes no grupo que irão manter um elo. Espero que tenhamos construído algo que perdure. Mas nunca se sabe. Nem sei exatamente o que vai acontecer no meu próprio dojo quando eu me for. Quem ficará encarregado? Tentarei não deixar nenhum conflito, não sei como, mas é da natureza humana ter diferenças. Talvez algumas pessoas briguem pelo dojo.

O Havaí é um bom exemplo. Eles brigaram para ver quem poderia usar o dojo. Aquele dojo pertencia aos membros e eles acabaram brigando para decidir quem poderia usá-lo. O New York Aikikai também pertence aos membros. Portanto podem surgir problemas. Seria diferente se eu tivesse um filho que assumisse, como na família Ueshiba. Mas meu filho não está envolvido com Aikido, então fica difícil prever o futuro no que se refere à nossa federação. Poderia haver uma cisão, mas ainda assim haveria uma boa parte de vocês que permaneceria unida e manteria a ordem. Não sei quantos, não sei quem exatamente, mas acho que incluiria vocês David e Peter, Claude (Berthiaume), e Harvey (Konigsberg).

Acho que isso é algo que já deveríamos começar a pensar de alguma forma.
Sim. De agora em diante quero passar mais tempo fazendo isso. Pensando em como manter vocês e a organização unida. Por isso quero estabelecer uma comunicação direta entre vocês e a instituição central, para o futuro. Não importa o que aconteça, vocês precisam manter comunicação com o dojo central. Aonde mais vocês iriam quando fossem ao Japão? O sonho de todo mundo é ir ao Japão e treinar no Hombu Dojo. Não há como negar isso.

Você acha que o Hombu dojo está tentando manter uma boa conexão conosco também?
Sim, acho que eles estão vendo a importância disso e também estão tentando. Eles se preocupam com sua relação comigo e com os outros shihan. Nós conversamos sobre esses assuntos. Se eles cometem um erro, devemos abordá-los diretamente. Temos que ter capacidade de dizer ‘não’ se discordarmos.

Escrevi em um artigo que, sendo um líder, você deve ter pessoas que possam lhe dizer ‘não’. “Olha, sensei, isso está errado. Não acho que é boa idéia.” É importante que haja essas pessoas e você deve escutá-las. Não se está sempre certo. Eu cometo erros. Como o Peter, às vezes você vem e diz alguma coisa quando discorda de mim. Não me importo, se acho que a idéia é boa vou com você. Se não concordo, te mando pro inferno! (risos)

Sensei, queremos lhe agradecer por essa entrevista. Cobrimos vários assuntos diferentes. Foi meio livre, sem direção determinada.
Acho que um elemento importante aqui é fazer com que o público saiba quem e o quê nós somos. Falar francamente. Dizer que há alguns grupos que estão no caminho certo. Nesse momento, muita gente está perdida. Há tanta porcaria por aí. Eles não sabem onde encontrar o verdadeiro Aikido. Dessa forma, pelo menos, eles têm alguma informação para tomarem sua decisão. Foi uma boa idéia. Sempre estarei disponível para entrevistas como essa.


Qual a cor da sua faixa?

Dia desses, me perguntaram sobre graduação e também sobre o porquê de usarmos apenas faixas brancas e pretas no Senshin.

Bem, em primeiro lugar, é preciso contextualizar: Na maior parte do mundo (incluindo EUA, Japão e Europa), usa-se apenas faixas brancas e pretas. Portanto, quem usa faixa colorida é que é “diferente”. No Brasil, todavia, esse é o padrão. A maioria dos dojos tupiquinins adotam o sistema (faixas coloridas) talvez como uma forma de estímulo aos alunos.

O fato é que quando abrimos o dojo, em 2002, o fizemos sob supervisão do sensei Ricardo Leite e ele, desde que criou sua própria organização (Bushinkan), optou por não usar cores. Além disso, somos filiados a Yoshimitsu Yamada Sensei, um dos mestres mais respeitados do mundo, que também nunca usou o sistema de faixas coloridas.

De qualquer forma, eu e Clauber fomos iniciados no aikido usando cores. Talvez por isso, confesso que no primeiro momento ficamos apreensivos sobre como os alunos reagiriam, mas pouco tempo depois percebemos que a reação era bastante positiva na grande maioria dos casos.

Sem nenhuma intenção de criticar dojos que usam faixas coloridas, mas enfim, o que penso sobre esse assunto após quase 8 anos usando o sistema PB é que:

  1. O sistema de faixas branca/preta trata os alunos como iguais e, principalmente, como adultos. Quem precisa de uma faixa amarela pra sentir-se estimulado a treinar?
  2. Faixas coloridas dão uma estranha e falsa sensação de que uns são mais que outros, quando na verdade, graduação é o que menos importa quando se está praticando.
  3. A estética japonesa preza bastante o minimalismo e o aikido herda isso por razões óbvias. Branco e preto têm tudo a ver com o Japão e com o aikido.
  4. Acho preto e branco mais bonito. =)

De qualquer forma, utilizamos as graduações universais do aikido. Para quem não sabe, existem kyus e dans. Kyus, as graduações menores (faixas brancas), são decrescentes. Ou seja, o aluno iniciante faz exame para 5ºkyu. Depois para 4º, 3º, 2º e, finalmente, para 1º kyu. A partir daí, sua próxima promoção será para 1ºdan (faixa preta 1º grau).

Os dans são crescentes e vão até o 8º, sendo que até 3ºdan as promoções são baseadas em critérios técnicos. As graduações de 4º a 8ºdan baseiam-se em outros fatores, como tempo de prática, serviços prestados à divulgação do aikido, número de alunos e outros mais subjetivos.

Em breve, falarei aqui sobre os critérios de avaliação para cada uma das graduações. Até breve.


“Sou iniciante. Estou atrapalhando o treino dos outros?”

Chegar num lugar novo onde não conhecemos o protocolo e nem as pessoas sempre causa um certo desconforto, sobretudo para os mais tímidos. Note que não estou falando de aikido, mas de qualquer atividade. Uma das lembranças mais antigas que tenho é do primeiro dia de aula no jardim da infância, quando minha mãe me abandonou deixou na escola sozinho com aquelas pessoas estranhas. Chorei a valer naquele dia, mas, ao final de uma semana, já tinha amigos e até uma namorada (que até hoje não sabe que era minha namorada, claro).

No aikido, é relativamente comum um iniciante achar que está atrapalhando o treino dos mais antigos. Normalmente, esse sentimento dura algumas poucas aulas, principalmente para os mais assíduos. Logo, o novo aluno percebe que as pessoas, em geral, são gentis e conhecem muito bem as dificuldades do começo.

O fato (falo pela minha experiência como aluno e instrutor) é que iniciantes aprendem muito mais rapidamente e de uma forma muito mais divertida quando praticam com alunos mais antigos. Por isso, sou completamente contra a divisão de turmas entre iniciantes e avançados. Além disso, também não sou afeito aos famosos yudanshakais (ou treinos para faixas-pretas), mas vou deixar esse assunto pra outro dia.

A importância de se treinar com iniciantes

Para os mais experientes, variar o tipo de treino é fundamental. Sim, as mesmas técnicas podem e devem ser praticadas com diferentes enfoques (treino lento e bem estruturado, fluido, mais marcial, mais didático…), pois é dessa diversidade de experiências que surge um aikido mais rico e fecundo.

Um desses tipos de treino é, sem dúvida, a prática com iniciantes. Fazer aikido com alguém que não tem vícios e que precisa ser conduzido pelas técnicas, além de ser gratificante, é de uma riqueza ímpar. Faz com que você tenha que formular internamente algumas coisas sobre as quais jamais pensou de modo racional. Faz você entender como alguém responde ao que você faz e à forma como se comunica. Faz com que você, ao tentar entender o outro, entenda melhor a si próprio. E dessa forma, acredite, seu aikido efetivamente melhora.

Para que isso aconteça, ambas as partes (iniciados e iniciantes) têm de estar dispostas e disponíveis. Os alunos antigos podem e devem ajudar, tomando a iniciativa de abordar os mais novos na hora de formar duplas ou grupos no tatame. Não há razão alguma para timidez ao se chamar alguém pra treinar. É mais ou menos como aquela minha namorada do jardim da infância. Uma vez, na festa junina da escola, eu queria dançar com ela, mas ela não sabia que era minha namorada. Daí… Bom, deixa pra lá.


Engate a quinta e acelere (ou: A importância da frequência na prática do aikido)

Nota: Este é o segundo dos 5 assuntos que o Karam pediu que eu abordasse.

Pra quem não sabe dirigir, vou explicar aqui rapidamente*:

  1. Entre no carro,
  2. Acomode-se confortavelmente,
  3. Ajuste os 3 retrovisores de modo que você consiga ver o que se passa à sua volta,
  4. Coloque o cinto de segurança,
  5. Ligue as luzes,
  6. Gire a chave,
  7. Dê seta para avisar que você vai sair,
  8. Olhe à frente,
  9. Olhe também no retrovisor,
  10. Olhe em volta,
  11. Pise na embreagem,
  12. Engate a primeira,
  13. Olhe em volta novamente (nunca se sabe quando um motoboy vai aparecer!),
  14. Acelere,
  15. Torça pro carro não morrer,
  16. Solte a embreagem,
  17. Cuide do volante!
  18. Pise na embreagem novamente,
  19. Engate a segunda,
  20. A esquina está chegando, ligue a seta…

Cara! Dirigir é difícil pra caramba! Requer atenção e ações coordenadas e direcionadas a um monte de coisas. Por isso, nas primeiras vezes em que você conduz um veículo, a coisa parece uma aventura. Depois, com a prática diária, tudo se torna tão natural que você simplesmente para de racionalizar cada ato e dá até pra ouvir uma musiquinha e pensar no menu do jantar.

Nesse aspecto, a diferença entre o ato de dirigir e o de praticar aikido é que você exercita suas habilidades como motorista diariamente… e o faz com uma baita concentração, aproveitando cada momento de aprendizado. Para os motoristas em geral, dirigir todos os dias não é uma opção. E se o cara dirigiu mal hoje, isso provavelmente não o fará ir de taxi amanhã. Já no aikido, você tem uma espécie de contrato consigo mesmo que é renovado a cada vez que você pisa no tatame.

O treino de aikido é baseado em repetição, ou seja, praticamos uma técnica repetidas vezes com a intenção de que nosso corpo aprenda e acostume-se com aqueles movimentos a ponto de torná-los instintivos.

No volante e no aikido as coisas acontecem muito rápido à sua frente. Assim como você freia ou troca uma marcha, o objetivo é que, uma vez que uma determinada situação se apresente, seu corpo reaja de forma natural e instintiva. Mas, para que isso aconteça, esse conhecimento deve estar bem sedimentado aí dentro de você… E a única forma de fazer isso acontecer é treinando, treinando… e treinando.

Assistir a vídeos, ler livros e sites, conversar com outros praticantes ou qualquer forma de exercício teórico de aikido pode te ajudar a expandir seus horizontes, mas nada substitui a prática física. Não adianta mentalizar um movimento 50 mil vezes. Seu corpo precisa executá-lo 50 mil vezes.

Tudo isso, meus caros, pra dizer o quanto a frequência é importante. Especialmente quando essa frequência estiver aliada à concentração. Ou será que você pratica aikido pensando no menu do jantar?

* Se você quer aprender a dirigir, vá à Auto Escola, ok?


Nota de falecimento: Kawai Sensei (28/02/1931 – 26/01/2010)

Foi com grande tristeza que recebi nesta manhã a nota informando o falecimento do shihan Reishin Kawai, 8º Dan, introdutor do Aikido no Brasil. Em nome do Senshin Dojo, torno público nosso pesar e deixo aqui nossa sincera homenagem àquele que deu início ao aikido no nosso país.

Abaixo, trecho da nota oficial:

Lamentamos muito informar o falecimento de Kawai Sensei. Há alguns anos Kawai Sensei foi operado da próstata por conta de um tumor, e também realizava hemodiálise semanalmente. No início desta semana, sofreu um AVC, vindo a falecer na noite de ontem.
O enterro será realizado às 17h no Cemitério de Congonhas, localizado na Rua Ministro Alvaro de Souza Lima, 101, Jardim Marajoara (distante cerca de 3km do Aeroporto de Congonhas, em direção a Interlagos).

Reishin Kawai Sensei (28/02/1931 – 27/01/2010)


Medo de sofrer ou provocar uma lesão

Nota: após meu último post, nosso amigo Karam levantou algumas boas questões às quais comentarei nos próximos dias. Esta é a primeira da série.

A primeira vista, uma arte marcial pode parecer algo perigoso, uma vez que a maioria das pessoas pensa nisso como “pessoas batendo em outras pessoas”. Mas sejamos racionais:

Onde (e com quem) você está?

O dojo é um ambiente controlado, ou seja:

  • Você sabe o que acontecerá a seguir;
  • Você sabe como deve proceder;
  • Seu parceiro de treino não é um inimigo, mas sim um companheiro que está ali para aprender como você e com você.
  • Há um instrutor com experiência, capacidade e responsabilidade que se certifica de que todos têm capacidade para executar os movimentos propostos. E qualquer bom instrutor sabe que segurança precisa ser prioridade no tatame. É ela (a segurança) que faz com que as pessoas voltem dia após dia, pratiquem e evoluam. Além disso, quando todos estão seguros a energia no dojo é melhor.

Com que frequência ocorrem acidentes no aikido?

Em cerca de 15 anos de aikido, vi um único acidente relativamente grave no tatame (causado não por uma agressão, mas por pura distração) e já soube de apenas 2 ou 3 outros acidentes mais chatos.

No mesmo período, perdi as contas de quantos amigos machucaram-se seriamente andando de moto, jogando futebol ou correndo atrás de gaivotas em praias desertas.

Por que acontecem acidentes no tatame?

Já presenciei vários incidentes com pouca gravidade, como estiramentos, dedos quebrados, pés torcidos e coisas assim.

A imensa maioria desses episódios tem uma coisa em comum: ocorreram em momentos de descontração excessiva, e, principalmente, quando os envolvidos “treinavam” depois de terminada a aula.

Ocorre, que, após o término do treino, normalmente o nível de atenção e concentração cai. Além disso, muitas vezes, o instrutor não está mais presente. Creia-me: é quando a bruxa fica solta.

Hummm… Então nunca devo treinar fora da aula?

Você já deve ter ouvido dizer que a maioria dos acidentes automobilísticos ocorre a poucos quarteirões de casa, quando o motorista relaxa e fica desatento. Pois é. Não há problemas em se treinar fora do horário de aula, mas é fundamental que isso seja feito com concentração e segurança (de preferência, na presença de alguém com experiência).

Ainda sobre isso, é interessante notar como toda a formalidade no protocolo do aikido (que para alguns pode parecer meio inútil) leva, naturalmente a um nível de atenção mais elevado. Recomendo que, ao treinar fora de aula, faça todas as reverências e mantenha o protocolo de treino.

Sinto um certo desconforto ao cair. O que há de errado?

Nada. Trata-se do seu corpo em fase de adaptação a novos movimentos. Muitas vezes, um iniciante consegue executar de forma satisfatória um rolamento, mas, mesmo assim, sente um certo incômodo… Ora, rolar no chão é algo que as pessoas, em geral,  não estão acostumadas.

Por mais que eu diga a você o que fazer, nossos corpos são diferentes, nossa consciência corporal e nossos reflexos são diferentes. É absolutamente natural que seu corpo reclame no começo.

Mas acredite: isso não é ruim. Desde que você não esteja se machucando pra valer, esses desconfortos, somados à prática frequente, fazem com que seu corpo descubra a forma ideal para executar cada movimento.

E, quando isso acontecer, vou gostar de cair?

Algumas pessoas acham que é masoquismo, mas a verdade pura e simples é que cair é uma delícia. Receber uma técnica, “voar” com o corpo relaxado por alguns momentos e chegar ao chão sem se machucar é uma verdadeira terapia anti-estresse. E além disso, não há maneira melhor de se aprender aikido do que recebendo as técnicas.

Mas.. e se não me sinto apto a executar um movimento durante a aula?

Comunique sua insegurança ao instrutor. Ele está ali para orientá-lo e protegê-lo, mas não possui poderes que o permitam sentir as suas dores ou medos. Nunca tenha vergonha de se dirigir ao instrutor com uma dúvida ou insegurança referente às técnicas. O tatame não é lugar para esse tipo de coisa. Ali, todos estão fazendo seu melhor para aprender e evoluir. Lembre-se que os mais experientes também já foram iniciantes um dia e passaram por todas essas dificuldades. Eles terão prazer em ajudá-lo.

E quanto ao meu parceiro de treino, como me certificar de que não vou machucá-lo?

Tente sempre entender os limites do seu parceiro e respeite-os. Mantenha a intensidade do treino, bem como a velocidade das técnicas, adequada à experiência dele.

Treine de forma séria e concentrada, mas seja gentil e compreensivo quanto às motivações do seu companheiro, afinal ele está “emprestando seu corpo” para que você possa praticar e se desenvolver. Lembre-se: nem todas as pessoas estão sobre o tatame pela mesma razão, mas todas devem ser respeitadas igualmente.


Fórmula pra ficar bom de aikido

O que faz alguém ficar bom em aikido?
Vou simplificar aqui resumindo tudo a 5 aspectos: frequência, boa instrução, compromisso, talento e sorte.

Frequência

Quanto mais você você treina, melhor. O ideal é treinar todos os dias, desde que, claro, seu corpo aguente isso numa boa. Se você não pode praticar 7 dias por semana, faça como eu: pratique 6. Se não pode 6, tente 5. Ou 4, 3, 2… Se você gosta de aikido e tem a possibilidade de praticar uma única vez por semana, não há problemas. Vá e aproveite ao máximo, mas é claro que sua evolução será mais lenta.

Boa instrução

Há professores ruins que têm alunos bons e há professores ótimos que têm alunos ruins. Mas, sem dúvida, ter um bom professor ajuda e muito. Faz com que você não perca tempo demais errando. Muita gente dedicou a vida a encontrar algumas respostas e se você tiver que fazer isso tudo de novo, simplesmente não vai dar tempo. Um bom instrutor também te deixa quebrar a cabeça às vezes, porque apesar do meu argumento anterior, é ótimo que você seja capaz de procurar suas próprias respostas quando isso for necessário. Por último, um bom instrutor nem sempre é o melhor técnico, mas sempre te dá condições, liberdade e incentivo para que você aprenda, veja coisas diferentes e mantenha sua visão aberta e saudável. O mau professor quer apenas que você fique sob sua asa. O bom professor quer muito que você fique bom.

Compromisso

Este é o aspecto mais importante até agora, porque, de certa forma, engloba os anteriores. O ponto aqui é: se você se propôs a fazer algo, faça de corpo e alma. Compromisso é treinar o máximo possível. É treinar certo, com foco. É buscar boa instrução, ir a seminários, ver o que os outros estão fazendo de bom. É falar menos e fazer mais. É abolir treinos mecânicos, dando mais vida ao seu aikido. É, sobretudo, quando você estiver exausto e começar a ficar desleixado, lembrar-se que fazer de qualquer jeito cansa o mesmo que fazer direito.

Não quero com isso dizer que o aikido tem que ser a prioridade número 1 na sua vida. Você tem sua família, seu trabalho, outras atividades… E é absolutamente legítimo se você considerar o aikido como sua oitava, talvez nona, prioridade. Mas o tema deste artigo é “o que é preciso pra ficar bom” e compromisso é fundamental.

Talento

O mundo não é justo e eu não vou ser hipócrita: é óbvio que talento ajuda… desde que o talentoso faça a parte dele. Mas isso não quer dizer que, para praticar aikido, você precisa ter um dom. Até porque seu talento muitas vezes aflora à medida em que você treina seriamente. Já vi muitos talentosos que nunca ficaram bons… e já vi gente que tinha bastante dificuldade evoluir até níveis bem altos. Uma vez vi sensei Donovan responder com uma certa indignação a alguém que exaltava seu “incrível talento”: “Talento? Eu treino há mais de 40 anos, várias horas quase todos os dias. Não reduza meu suor a talento”. Dizer que alguém é muito talentoso, algumas vezes é uma desculpa para nossa própria falta de empenho. Pense nisso.

Sorte

Tenho um amigo que diz: “Sem sorte, não dá nem pra comer um Sonho de Valsa. O papel gruda, o chocolate derrete, o telefone toca, seu amigo pede um pedaço…”.
É chato, mas é verdade. Não importa em que cidade do Brasil você mora, mas certamente, você sabe o que é futebol. Com certeza já andou chutando bola por aí. Talvez tenha gostado, talvez não. Talvez tenha talento e vontade, talvez não. Agora, se você mora em Inhaúmas, é bem possível que não haja um dojo de aikido por perto (escrevi a primeira cidade que me veio à cabeça. Se houver um super dojo em Inhaúmas, peço que me desculpem e corrijam). É claro que se o cidadão inhaumense (“inhaumense, Tharso?”) tiver o sonho de treinar aikido, ele vai batalhar por isso e tem boas chances de conseguir. Mas quando falo em sorte, penso no cara que teria tudo pra ser ótimo, mas que passará a vida sem nem saber o que é aikido. Você tem que ter a sorte de conhecer aikido, ter um dojo perto, horários compatíveis, encontrar um bom professor num momento em que ainda não tem repertório para escolher um… enfim, há alguns fatores imponderáveis. Mas se você leu este texto até aqui, acho que já superou essa parte.

Povo de Inhaúmas, espero vocês no dojo!


Alô, alô, testando…

Há tempos, eu queria uma câmera pequena e fácil de transportar, que fizesse boas fotos e gravasse vídeo em HD. No fim do ano passado, finalmente dei-me de presente uma Leica D-LUX4, que foi a câmera compacta mais legal que consegui encontrar.

Minha ideia é gravar o máximo de material possível, tanto no Senshin quanto no Tsurugui (pra quem não sabe, atualmente moro em São Paulo e, durante a semana, treino lá).

Ainda estou fazendo testes de luz, posicionamento, configurações etc, mas já deu pra brincar um pouquinho. O resultado do primeiro teste está no vídeo aí embaixo. Foi a aula que dei no Tsurugui no dia 04/01/2010. Como já era esperado, fiz um monte de besteiras: posicionei mal a câmera, esqueci de gravar algumas técnicas… Mas enfim, é um começo. Abração e feliz 2010!


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