“Todos temos um espírito que pode ser aprimorado, um corpo que pode ser treinado de alguma forma e um caminho apropriado a seguir.” (Morihei Ueshiba)
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“Sou iniciante. Estou atrapalhando o treino dos outros?”

Chegar num lugar novo onde não conhecemos o protocolo e nem as pessoas sempre causa um certo desconforto, sobretudo para os mais tímidos. Note que não estou falando de aikido, mas de qualquer atividade. Uma das lembranças mais antigas que tenho é do primeiro dia de aula no jardim da infância, quando minha mãe me abandonou deixou na escola sozinho com aquelas pessoas estranhas. Chorei a valer naquele dia, mas, ao final de uma semana, já tinha amigos e até uma namorada (que até hoje não sabe que era minha namorada, claro).

No aikido, é relativamente comum um iniciante achar que está atrapalhando o treino dos mais antigos. Normalmente, esse sentimento dura algumas poucas aulas, principalmente para os mais assíduos. Logo, o novo aluno percebe que as pessoas, em geral, são gentis e conhecem muito bem as dificuldades do começo.

O fato (falo pela minha experiência como aluno e instrutor) é que iniciantes aprendem muito mais rapidamente e de uma forma muito mais divertida quando praticam com alunos mais antigos. Por isso, sou completamente contra a divisão de turmas entre iniciantes e avançados. Além disso, também não sou afeito aos famosos yudanshakais (ou treinos para faixas-pretas), mas vou deixar esse assunto pra outro dia.

A importância de se treinar com iniciantes

Para os mais experientes, variar o tipo de treino é fundamental. Sim, as mesmas técnicas podem e devem ser praticadas com diferentes enfoques (treino lento e bem estruturado, fluido, mais marcial, mais didático…), pois é dessa diversidade de experiências que surge um aikido mais rico e fecundo.

Um desses tipos de treino é, sem dúvida, a prática com iniciantes. Fazer aikido com alguém que não tem vícios e que precisa ser conduzido pelas técnicas, além de ser gratificante, é de uma riqueza ímpar. Faz com que você tenha que formular internamente algumas coisas sobre as quais jamais pensou de modo racional. Faz você entender como alguém responde ao que você faz e à forma como se comunica. Faz com que você, ao tentar entender o outro, entenda melhor a si próprio. E dessa forma, acredite, seu aikido efetivamente melhora.

Para que isso aconteça, ambas as partes (iniciados e iniciantes) têm de estar dispostas e disponíveis. Os alunos antigos podem e devem ajudar, tomando a iniciativa de abordar os mais novos na hora de formar duplas ou grupos no tatame. Não há razão alguma para timidez ao se chamar alguém pra treinar. É mais ou menos como aquela minha namorada do jardim da infância. Uma vez, na festa junina da escola, eu queria dançar com ela, mas ela não sabia que era minha namorada. Daí… Bom, deixa pra lá.


Engate a quinta e acelere (ou: A importância da frequência na prática do aikido)

Nota: Este é o segundo dos 5 assuntos que o Karam pediu que eu abordasse.

Pra quem não sabe dirigir, vou explicar aqui rapidamente*:

  1. Entre no carro,
  2. Acomode-se confortavelmente,
  3. Ajuste os 3 retrovisores de modo que você consiga ver o que se passa à sua volta,
  4. Coloque o cinto de segurança,
  5. Ligue as luzes,
  6. Gire a chave,
  7. Dê seta para avisar que você vai sair,
  8. Olhe à frente,
  9. Olhe também no retrovisor,
  10. Olhe em volta,
  11. Pise na embreagem,
  12. Engate a primeira,
  13. Olhe em volta novamente (nunca se sabe quando um motoboy vai aparecer!),
  14. Acelere,
  15. Torça pro carro não morrer,
  16. Solte a embreagem,
  17. Cuide do volante!
  18. Pise na embreagem novamente,
  19. Engate a segunda,
  20. A esquina está chegando, ligue a seta…

Cara! Dirigir é difícil pra caramba! Requer atenção e ações coordenadas e direcionadas a um monte de coisas. Por isso, nas primeiras vezes em que você conduz um veículo, a coisa parece uma aventura. Depois, com a prática diária, tudo se torna tão natural que você simplesmente para de racionalizar cada ato e dá até pra ouvir uma musiquinha e pensar no menu do jantar.

Nesse aspecto, a diferença entre o ato de dirigir e o de praticar aikido é que você exercita suas habilidades como motorista diariamente… e o faz com uma baita concentração, aproveitando cada momento de aprendizado. Para os motoristas em geral, dirigir todos os dias não é uma opção. E se o cara dirigiu mal hoje, isso provavelmente não o fará ir de taxi amanhã. Já no aikido, você tem uma espécie de contrato consigo mesmo que é renovado a cada vez que você pisa no tatame.

O treino de aikido é baseado em repetição, ou seja, praticamos uma técnica repetidas vezes com a intenção de que nosso corpo aprenda e acostume-se com aqueles movimentos a ponto de torná-los instintivos.

No volante e no aikido as coisas acontecem muito rápido à sua frente. Assim como você freia ou troca uma marcha, o objetivo é que, uma vez que uma determinada situação se apresente, seu corpo reaja de forma natural e instintiva. Mas, para que isso aconteça, esse conhecimento deve estar bem sedimentado aí dentro de você… E a única forma de fazer isso acontecer é treinando, treinando… e treinando.

Assistir a vídeos, ler livros e sites, conversar com outros praticantes ou qualquer forma de exercício teórico de aikido pode te ajudar a expandir seus horizontes, mas nada substitui a prática física. Não adianta mentalizar um movimento 50 mil vezes. Seu corpo precisa executá-lo 50 mil vezes.

Tudo isso, meus caros, pra dizer o quanto a frequência é importante. Especialmente quando essa frequência estiver aliada à concentração. Ou será que você pratica aikido pensando no menu do jantar?

* Se você quer aprender a dirigir, vá à Auto Escola, ok?


Nota de falecimento: Kawai Sensei (28/02/1931 – 26/01/2010)

Foi com grande tristeza que recebi nesta manhã a nota informando o falecimento do shihan Reishin Kawai, 8º Dan, introdutor do Aikido no Brasil. Em nome do Senshin Dojo, torno público nosso pesar e deixo aqui nossa sincera homenagem àquele que deu início ao aikido no nosso país.

Abaixo, trecho da nota oficial:

Lamentamos muito informar o falecimento de Kawai Sensei. Há alguns anos Kawai Sensei foi operado da próstata por conta de um tumor, e também realizava hemodiálise semanalmente. No início desta semana, sofreu um AVC, vindo a falecer na noite de ontem.
O enterro será realizado às 17h no Cemitério de Congonhas, localizado na Rua Ministro Alvaro de Souza Lima, 101, Jardim Marajoara (distante cerca de 3km do Aeroporto de Congonhas, em direção a Interlagos).

Reishin Kawai Sensei (28/02/1931 – 27/01/2010)


Medo de sofrer ou provocar uma lesão

Nota: após meu último post, nosso amigo Karam levantou algumas boas questões às quais comentarei nos próximos dias. Esta é a primeira da série.

A primeira vista, uma arte marcial pode parecer algo perigoso, uma vez que a maioria das pessoas pensa nisso como “pessoas batendo em outras pessoas”. Mas sejamos racionais:

Onde (e com quem) você está?

O dojo é um ambiente controlado, ou seja:

  • Você sabe o que acontecerá a seguir;
  • Você sabe como deve proceder;
  • Seu parceiro de treino não é um inimigo, mas sim um companheiro que está ali para aprender como você e com você.
  • Há um instrutor com experiência, capacidade e responsabilidade que se certifica de que todos têm capacidade para executar os movimentos propostos. E qualquer bom instrutor sabe que segurança precisa ser prioridade no tatame. É ela (a segurança) que faz com que as pessoas voltem dia após dia, pratiquem e evoluam. Além disso, quando todos estão seguros a energia no dojo é melhor.

Com que frequência ocorrem acidentes no aikido?

Em cerca de 15 anos de aikido, vi um único acidente relativamente grave no tatame (causado não por uma agressão, mas por pura distração) e já soube de apenas 2 ou 3 outros acidentes mais chatos.

No mesmo período, perdi as contas de quantos amigos machucaram-se seriamente andando de moto, jogando futebol ou correndo atrás de gaivotas em praias desertas.

Por que acontecem acidentes no tatame?

Já presenciei vários incidentes com pouca gravidade, como estiramentos, dedos quebrados, pés torcidos e coisas assim.

A imensa maioria desses episódios tem uma coisa em comum: ocorreram em momentos de descontração excessiva, e, principalmente, quando os envolvidos “treinavam” depois de terminada a aula.

Ocorre, que, após o término do treino, normalmente o nível de atenção e concentração cai. Além disso, muitas vezes, o instrutor não está mais presente. Creia-me: é quando a bruxa fica solta.

Hummm… Então nunca devo treinar fora da aula?

Você já deve ter ouvido dizer que a maioria dos acidentes automobilísticos ocorre a poucos quarteirões de casa, quando o motorista relaxa e fica desatento. Pois é. Não há problemas em se treinar fora do horário de aula, mas é fundamental que isso seja feito com concentração e segurança (de preferência, na presença de alguém com experiência).

Ainda sobre isso, é interessante notar como toda a formalidade no protocolo do aikido (que para alguns pode parecer meio inútil) leva, naturalmente a um nível de atenção mais elevado. Recomendo que, ao treinar fora de aula, faça todas as reverências e mantenha o protocolo de treino.

Sinto um certo desconforto ao cair. O que há de errado?

Nada. Trata-se do seu corpo em fase de adaptação a novos movimentos. Muitas vezes, um iniciante consegue executar de forma satisfatória um rolamento, mas, mesmo assim, sente um certo incômodo… Ora, rolar no chão é algo que as pessoas, em geral,  não estão acostumadas.

Por mais que eu diga a você o que fazer, nossos corpos são diferentes, nossa consciência corporal e nossos reflexos são diferentes. É absolutamente natural que seu corpo reclame no começo.

Mas acredite: isso não é ruim. Desde que você não esteja se machucando pra valer, esses desconfortos, somados à prática frequente, fazem com que seu corpo descubra a forma ideal para executar cada movimento.

E, quando isso acontecer, vou gostar de cair?

Algumas pessoas acham que é masoquismo, mas a verdade pura e simples é que cair é uma delícia. Receber uma técnica, “voar” com o corpo relaxado por alguns momentos e chegar ao chão sem se machucar é uma verdadeira terapia anti-estresse. E além disso, não há maneira melhor de se aprender aikido do que recebendo as técnicas.

Mas.. e se não me sinto apto a executar um movimento durante a aula?

Comunique sua insegurança ao instrutor. Ele está ali para orientá-lo e protegê-lo, mas não possui poderes que o permitam sentir as suas dores ou medos. Nunca tenha vergonha de se dirigir ao instrutor com uma dúvida ou insegurança referente às técnicas. O tatame não é lugar para esse tipo de coisa. Ali, todos estão fazendo seu melhor para aprender e evoluir. Lembre-se que os mais experientes também já foram iniciantes um dia e passaram por todas essas dificuldades. Eles terão prazer em ajudá-lo.

E quanto ao meu parceiro de treino, como me certificar de que não vou machucá-lo?

Tente sempre entender os limites do seu parceiro e respeite-os. Mantenha a intensidade do treino, bem como a velocidade das técnicas, adequada à experiência dele.

Treine de forma séria e concentrada, mas seja gentil e compreensivo quanto às motivações do seu companheiro, afinal ele está “emprestando seu corpo” para que você possa praticar e se desenvolver. Lembre-se: nem todas as pessoas estão sobre o tatame pela mesma razão, mas todas devem ser respeitadas igualmente.


Fórmula pra ficar bom de aikido

O que faz alguém ficar bom em aikido?
Vou simplificar aqui resumindo tudo a 5 aspectos: frequência, boa instrução, compromisso, talento e sorte.

Frequência

Quanto mais você você treina, melhor. O ideal é treinar todos os dias, desde que, claro, seu corpo aguente isso numa boa. Se você não pode praticar 7 dias por semana, faça como eu: pratique 6. Se não pode 6, tente 5. Ou 4, 3, 2… Se você gosta de aikido e tem a possibilidade de praticar uma única vez por semana, não há problemas. Vá e aproveite ao máximo, mas é claro que sua evolução será mais lenta.

Boa instrução

Há professores ruins que têm alunos bons e há professores ótimos que têm alunos ruins. Mas, sem dúvida, ter um bom professor ajuda e muito. Faz com que você não perca tempo demais errando. Muita gente dedicou a vida a encontrar algumas respostas e se você tiver que fazer isso tudo de novo, simplesmente não vai dar tempo. Um bom instrutor também te deixa quebrar a cabeça às vezes, porque apesar do meu argumento anterior, é ótimo que você seja capaz de procurar suas próprias respostas quando isso for necessário. Por último, um bom instrutor nem sempre é o melhor técnico, mas sempre te dá condições, liberdade e incentivo para que você aprenda, veja coisas diferentes e mantenha sua visão aberta e saudável. O mau professor quer apenas que você fique sob sua asa. O bom professor quer muito que você fique bom.

Compromisso

Este é o aspecto mais importante até agora, porque, de certa forma, engloba os anteriores. O ponto aqui é: se você se propôs a fazer algo, faça de corpo e alma. Compromisso é treinar o máximo possível. É treinar certo, com foco. É buscar boa instrução, ir a seminários, ver o que os outros estão fazendo de bom. É falar menos e fazer mais. É abolir treinos mecânicos, dando mais vida ao seu aikido. É, sobretudo, quando você estiver exausto e começar a ficar desleixado, lembrar-se que fazer de qualquer jeito cansa o mesmo que fazer direito.

Não quero com isso dizer que o aikido tem que ser a prioridade número 1 na sua vida. Você tem sua família, seu trabalho, outras atividades… E é absolutamente legítimo se você considerar o aikido como sua oitava, talvez nona, prioridade. Mas o tema deste artigo é “o que é preciso pra ficar bom” e compromisso é fundamental.

Talento

O mundo não é justo e eu não vou ser hipócrita: é óbvio que talento ajuda… desde que o talentoso faça a parte dele. Mas isso não quer dizer que, para praticar aikido, você precisa ter um dom. Até porque seu talento muitas vezes aflora à medida em que você treina seriamente. Já vi muitos talentosos que nunca ficaram bons… e já vi gente que tinha bastante dificuldade evoluir até níveis bem altos. Uma vez vi sensei Donovan responder com uma certa indignação a alguém que exaltava seu “incrível talento”: “Talento? Eu treino há mais de 40 anos, várias horas quase todos os dias. Não reduza meu suor a talento”. Dizer que alguém é muito talentoso, algumas vezes é uma desculpa para nossa própria falta de empenho. Pense nisso.

Sorte

Tenho um amigo que diz: “Sem sorte, não dá nem pra comer um Sonho de Valsa. O papel gruda, o chocolate derrete, o telefone toca, seu amigo pede um pedaço…”.
É chato, mas é verdade. Não importa em que cidade do Brasil você mora, mas certamente, você sabe o que é futebol. Com certeza já andou chutando bola por aí. Talvez tenha gostado, talvez não. Talvez tenha talento e vontade, talvez não. Agora, se você mora em Inhaúmas, é bem possível que não haja um dojo de aikido por perto (escrevi a primeira cidade que me veio à cabeça. Se houver um super dojo em Inhaúmas, peço que me desculpem e corrijam). É claro que se o cidadão inhaumense (“inhaumense, Tharso?”) tiver o sonho de treinar aikido, ele vai batalhar por isso e tem boas chances de conseguir. Mas quando falo em sorte, penso no cara que teria tudo pra ser ótimo, mas que passará a vida sem nem saber o que é aikido. Você tem que ter a sorte de conhecer aikido, ter um dojo perto, horários compatíveis, encontrar um bom professor num momento em que ainda não tem repertório para escolher um… enfim, há alguns fatores imponderáveis. Mas se você leu este texto até aqui, acho que já superou essa parte.

Povo de Inhaúmas, espero vocês no dojo!


Alô, alô, testando…

Há tempos, eu queria uma câmera pequena e fácil de transportar, que fizesse boas fotos e gravasse vídeo em HD. No fim do ano passado, finalmente dei-me de presente uma Leica D-LUX4, que foi a câmera compacta mais legal que consegui encontrar.

Minha ideia é gravar o máximo de material possível, tanto no Senshin quanto no Tsurugui (pra quem não sabe, atualmente moro em São Paulo e, durante a semana, treino lá).

Ainda estou fazendo testes de luz, posicionamento, configurações etc, mas já deu pra brincar um pouquinho. O resultado do primeiro teste está no vídeo aí embaixo. Foi a aula que dei no Tsurugui no dia 04/01/2010. Como já era esperado, fiz um monte de besteiras: posicionei mal a câmera, esqueci de gravar algumas técnicas… Mas enfim, é um começo. Abração e feliz 2010!


Linha do tempo II

Como parece que a ideia agradou, criei um endereço permanente para a nossa linha do tempo. Ela ficará em http://senshin.com.br/linha-do-tempo/.

Como eu disse antes, nossa timeline ainda é BETA, ou seja, está em construção, com poucos eventos e informações, mas já está sendo incrementada com os inputs que estão chegando aqui.


Linha do tempo

Como promessa é dívida, este post é pra apresentar a “Retrospectiva Senshin 2009″. Mas quando comecei a escrever, percebi que talvez fosse esquecer de alguma coisa importante, então tive uma ideia: criei uma linha do tempo do dojo. Sim, uma linha do tempo me pareceu um formato bacana pra registrar todos os fatos e eventos relevantes para o Senshin e seus membros. E a melhor parte é que ela pode continuar sendo constantemente atualizada. E, além disso, não preciso lembrar de tudo o que aconteceu até hoje de uma vez só. ;-)

A ideia é que vocês todos que se lembram de algo, comentem neste post ou me escrevam no tharso@senshin.com.br. Mandem informações, fotos e vídeos.

“Mas Tharso, que tipo de evento é relevante pro dojo?”

Ok, ok… Sabia que vocês perguntariam isso. É o seguinte: seminários, exames, aulas especiais, nascimento de filhas do Clauber, visitas ao dojo, viagens “aikidoísticas”, inaugurações e acho que já tá bom. Mas se alguém lembrar de mais alguma coisa, é só dizer. Bom, aí vai. Espero que gostem.


Passando pra dar um alô

Salve! Passando por aqui depois de vários dias sem acesso à internet pra dizer que ainda pretendo conseguir tempo pra escrever um post decente de fim de ano, com uma “Retrospectiva Senshin 2009″.

Por ora, espero que todos tenham tido um ótimo natal e que estejam aproveitando esse fim de ano.

Ah, e só pra lembrar: o dojo volta às aulas no dia 5 de janeiro.

Beijão procêis, pessoas! =)


Entrevista: Yamada Sensei (parte 3)

(Por Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan)

Nota do editor: Esta é a terceira parte da entrevista com Yamada Sensei que aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. No trecho a seguir, Yamada Sensei de sua ida para os Estados Unidos, em 64 e da separação de Koichi Tohei do Aikikai. (você também pode acessar a primeira parte da entrevista, a segunda parte e a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online). Mais uma vez, agradecemos à Cris pela tradução.

Yamada Sensei

Sensei, como você acabou vindo para os Estados Unidos?
Houve várias razões na verdade. A primeira foi por causa do idioma. Eu já falava inglês, não tão bem como agora, mas falava alguma coisa. Esse foi um motivo. Em segundo lugar, dava aula para os americanos nas bases militares no Japão, portanto estava familiarizado com a mentalidade desse povo. E também porque eu queria vir para Nova York. Sabia que Nova York era o meu tipo de cidade.

Eu tinha conhecido algumas pessoas daqui que já estavam praticando e sabiam o que era Aikido. Essa foi a razão principal. Eu vim em 1964, na época da Feira Mundial em Nova York. Inicialmente, (Koichi) Tohei Sensei estaria comigo nessa feira para fazer demonstrações de Aikido no pavilhão japonês, mas ele não pôde vir.

Por que ele não pôde vir?
Bom, não sei se eu deveria falar, mas ele estava bêbado uma noite, caiu e quebrou as costas. Acho que isso aconteceu umas duas semanas antes de nossa partida. É por isso que ele tem tanto problema com suas costas até hoje, resquícios daquele acidente.

Yamada Sensei

Então você permaneceu em Nova York após a Feira?
Bom, eu não sabia quanto tempo iria ficar. Eu achava que alguns meses, algo assim, mas, ainda estou aqui. Como eu disse, nenhum de nós achava possível se sustentar com o Aikido. A coisa meio que aconteceu. Tamura conhecia algumas pessoas na França, então ele já tinha um contato. A mesma coisa com o Chiba na Inglaterra. O Sugano casou com uma australiana e se mudou para lá com ela. Sei que as pessoas gostam de imaginar que havia um grande plano do Hombu Dojo, mas isso não é verdade. Não foi planejado, nós simplesmente fizemos tudo por nossa conta.

Você era casado nessa época, não era?
Sim, mas não pude trazer minha esposa até bem depois. Eu não tinha dinheiro e estava tendo muitos problemas com meu visto. Eu tinha um advogado imbecil. Se ele tivesse me conseguido um visto de turista logo no início eu não teria tido qualquer problema para conseguir o green card. Naquela época era fácil, mas eu tinha esse tipo especial de visto de intercâmbio cultural. Eles não têm mais isso, mas como era o que eu tinha, me deu muito trabalho para obter o green card. Nunca sabia se eles iam me mandar embora.

Depois, com a família aqui, especialmente meus dois filhos que nasceram aqui e cresceram como cidadãos americanos, eles tinham que pensar antes de me chutar para fora. Porque era obrigação deles proteger os cidadãos americanos. Eles não se importavam comigo, minha esposa ou Mika, minha primogênita nascida no Japão, apenas com meus filhos americanos.

Uma vez me disseram: “OK, deixe os seus dois filhos americanos aqui e vá para casa. Você, sua mulher e sua filha mais velha simplesmente vão embora. Inacreditável! Então tive que arranjar um monte de desculpas relacionadas aos meus filhos, do porquê eu não podia ir embora. Só por isso eles me deixaram ficar”.

A primeira desculpa que usei foi que se eu voltasse para o Japão, não ganharia o suficiente para sustentar a família. Minha empresa, que era o Aikikai, Hombu Dojo, não podia me pagar o bastante para sustentar dois cidadãos americanos. Então eles tiveram que reconsiderar. Claro que tive que pedir para o Hombu Dojo escrever uma carta dizendo o quanto eles iriam me pagar se eu voltasse a ensinar lá. Levei a carta para a imigração e levou de 3 a 4 meses para eles tomarem uma decisão. Então finalmente disseram não, você tem que ir embora.

Então, a próxima desculpa, pelo que me lembro, foi a saúde das crianças. Disse que o Japão era muito úmido, não era um bom lugar para um bebê crescer, um cidadão americano. Então de novo eles reconsideraram mais um pouco. Naquele tempo um de meus alunos trabalhava na imigração. Toda vez que ele ia até a escrivaninha e via meus documentos, os colocava de volta em baixo da pilha! (risos). Tentei de tudo. Não sei quantas vezes fui à imigração. Odiava fazer isso.

Agora, tem uma coisa boa que o Presidente Nixon fez, ele cancelou aquele programa de visto para intercâmbio cultural. Portanto, de repente, eu não tinha mais um status definido. Eu era livre. Porque uma vez residente você não pode deixar de ser. Ponto. É a lei. Então, a primeira coisa que você deveria fazer era pegar a permissão do Departamento de Trabalho. Peguei essa permissão da imigração e Departamento de Trabalho. Eles colocavam um anúncio no New York Times: “alguém tem uma graduação maior do que a minha em Aikido?” Se um americano se apresentasse, eu não recebia o visto. Eles não querem que você pegue o trabalho dos americanos.

Mas aí, depois de tudo esclarecido, tive a permissão para ficar. Por isso tive que enviar minha família de volta ao Japão, mesmo sendo cidadãos americanos e tendo passaportes americanos; porque eu não sabia quando eles iriam me mandar para fora do país e não os queria presos a mim nessa hora. Naquela época você podia ir para o Canadá por um dia e retornar como turista. Mas eu não tinha o visto de turista, não podia fazer isso. Se deixasse o país, era o fim. Não poderia voltar por dois anos. Por isso mandei minha família de volta.

Quanto tempo eles ficaram longe?
Bom, eles começaram a estudar lá. Ainda bem que minha família podia tomar conta deles. Não havia como sustentá-los com minha receita de Aikido naquela época. Como eu ia fazer? Sinto-me mal quanto à minha família, não tenho muitas lembranças com as crianças. Estávamos separados, e, quando eles retornaram, eu estava ocupado, e não estávamos tão bem financeiramente quanto hoje.

Eu não podia simplesmente levá-los para onde eu ia. Para um seminário, de jeito nenhum, impossível. Levei Nima uma vez para um Summer Camp quando era pequena. Esse é meu único grande arrependimento, o tempo que não passei junto à minha família.

Como eram as aulas no New York Aikikai nessa época, nos primórdios?
No início, todos os alunos eram ex-praticantes de judô ou karatê. Eles eram os únicos interessados. Nós não anunciávamos publicamente. Também havia o pessoal do Tai-Chi. Enquanto dava aula, podia escutá-los no vestiário discutindo tudo, as técnicas, a efetividade. Havia um cara, Lou Kleinsmith, que era instrutor de judô e professor de Tai-Chi e era meio metido a esperto. Ele sempre falava para o pessoal “É assim que realmente funciona, blá, blá,blá”, e mostrava algum truquezinho ou coisa parecida. Claro que não era Aikido. (risos).

Então, mais ou menos nesse período, começou a febre do karatê. Eu tinha bom relacionamento com todos os professores americanos de karatê, portanto, toda vez que eles tinham um torneio, me convidavam para fazer demonstrações no Madison Square Garden e em outros lugares. Me convidavam quase toda semana. Claro que não me pagavam, mas era uma boa oportunidade de difundir o Aikido.
Yamada Sensei - Demonstração

Então as pessoas que viam as demonstrações…
Sim. Toda vez que eu fazia uma demonstração eles adoravam. Depois de ficar vendo karatê por 3 a 4 horas, eles se cansavam daquilo e queriam algo novo, diferente. Eu entrava no palco, não ficava muito tempo, só bam, bam, bam e acabou. As pessoas nunca haviam visto nada parecido. Eles adoravam. No dia seguinte, apareciam no dojo.

Então isso realmente ajudou o Dojo a crescer?
Ajudou, porque essa é a única forma de se fazer propaganda. É o único jeito de fazer com que as pessoas saibam o que é o Aikido. Por isso não gosto mais de fazer demonstrações. Fiz tantas que me cansei disso. Foi um exagero. Mas nós aproveitávamos qualquer oportunidade.

Fiz uma demonstração nas ruas do South Bronx, no asfalto. Era inverno, portanto eu estava usando luvas pretas. Me lembro de um cara dizendo, ‘Oh, ele é um matador, tem luvas pretas!’ (risos). Naquele tempo muita gente tinha idéias doidas sobre as artes marciais. Sabe como é… Eles copiavam o Bruce Lee do seriado de televisão que existia.

O “Besouro Verde”?
Isso mesmo. Esse programa ajudou muito a trazer popularidade às artes marciais, mais interesse. E tinha um outro cara … fiz uma demonstração com ele, aquele astro de cinema … ele faz o Texas Ranger hoje.

Chuck Norris?
Isso, ele. Chuck Norris. Um cara legal. Costumávamos fazer demonstrações juntos. Ele gosta de Aikido. Fizemos uma demonstração no Hilton de Nova York.

Certa vez fiz uma demonstração com um professor de karatê. Foi engraçado, meus alunos eram muito maldosos. Ele fez uma demonstração na qual ele cortava fora o gargalo de duas garrafas de uísque com as mãos… bam, bam, bam. Então meus alunos brincavam, “o pessoal do karatê vai e arranca os gargalos do uísque e o pessoal do Aikido vem e bebe.” (risos)

Parecem tempos selvagens.
Sim, era selvagem.

Quem eram algumas das primeiras pessoas no dojo?
Bom, deixe-me ver. No início eu não tinha onde morar, então dormia no dojo, no vestiário, com Angel Alvarez. Angel era uchideshi. Era um garoto de 13 anos. Ele estava estudando. Não me lembro exatamente como ele foi parar no Dojo. Terei que perguntar a ele. Mas no Dojo antigo nós morávamos juntos. Ele ia pra escola depois do treino. Era um menino bonitinho, inocente, sabe?

Isso é difícil de acreditar (risos). Ele foi o primeiro uchideshi no New York Aikikai ?
Mais ou menos, sim. Ele foi o primeiro.

Embaixo: Sunil; Acima dele: Chuck, Ben e Heidi; Em cima: Clauber, Eduardinho, Tharso e Angel Alvarez - dobrando o hakama -, o primeiro uchideshi do New York Aikikai.

Embaixo: Sunil; Acima dele: Chuck, Heidi e Ben. Em cima: Clauber, Eduardinho, Tharso e Angel Alvarez, o primeiro uchideshi do New York Aikikai.

Então ele estava lá antes do Harvey?
Estava. O Harvey veio depois do Harry McCormack. Acho que Harry o apresentou ao Aikido. Mike Abrams já estava lá. Ele estava cursando o último ano da faculdade ou coisa assim.

Quantos membros havia no New York Aikikai nos dois primeiros anos?
Talvez 50 membros pagantes. Como disse, naquela época eles não tinham condições de alugar um apartamento para mim. Não havia dinheiro sobrando, só o suficiente para pagar o aluguel e a luz. Eu havia trazido alguns dólares comigo do Japão. Se não fosse isso, não teria durado muito.

Menti para o meu pai quando vim para cá, dizendo que ia para a Columbia University. Foi assim que consegui que me desse dinheiro para ficar. Fui lá um dia (risos). Fazia um curso de inglês. Tudo que eles me ensinavam era ‘This is a pen… is this a pen?”. Eu pensei “que diabo…” (risos). Não preciso pagar por isso. Já sei o que é uma caneta! (risos).

Prefiro ir à um bar e aprender inglês “vivo”. E foi o que fiz. Foi assim que aperfeiçoei meu inglês. Mas tinha que mostrar para meu pai que freqüentava a faculdade. Era só por isso que ele me mandava dinheiro.

Quando você começou a pensar em fundar a USAF (Unites States Aikido Federation)?
Posso pensar em duas razões: uma foi por causa do rompimento de (Koichi) Tohei Sensei com o Aikikai. Tínhamos que ter nossa própria identidade. E também, por causa da fundação da International Aikido Federation. Fomos mais ou menos forçados a nos unir rapidamente. Não fomos avisados de nada até tudo já estar estabelecido, porque era uma situação mais européia.

Então o Chiba nos perguntou se iríamos aderir. Falamos OK, e ele então disse que teríamos que formar uma federação nacional para entrar como membro. Foi por isso que começamos. Tivemos que fazer inúmeras reuniões para organizar tudo isso. Yoshioka, no Havaí, cooperou. Juntamos um bom grupo de pessoas. Bill Witt, Frank Doran, Bob Nadeau… O grupo da Costa Oeste.

Quem era o Shihan aqui na época?
Kanai Sensei, claro. Akira Tohei Sensei estava em Chicago na época… Ele ficou no Havaí antes disso por um bom tempo. Na verdade, ele estava no Havaí quando eu estava a caminho de Nova York em 1964. Dei uma passada lá para encontrá-lo. Ele foi enviado para ficar lá pelo período de dois anos. Naquele tempo ele era aluno direto do Koichi Tohei. Por isso Tohei Sensei o mandou para lá. Então ele retornou ao Japão por um tempo, e depois foi para Chicago.

Então a USAF foi formada depois da saída de Koichi Tohei Sensei do Aikikai?
Foi. Nós já tínhamos alguma coisa como uma associação na Costa Leste, mas nada nacional.

Imagino que foi um período difícil quando Koichi Tohei saiu.
Foi. Foi uma grande ruptura. Alguns dos professores japoneses foram com ele. Na maioria os alunos diretos mais antigos de Tohei Sensei em sua cidade natal. Toyoda foi um dos que rompeu. E também Shuji Maruyama. Ele estava em Cleveland inicialmente. Tinha sido contratado por alguma escola de arte marcial de lá. Depois ele se mudou para a Filadélfia. Ele foi junto com o Tohei, o que foi bom para mim e Kanai. Ele era muito chato (risos). De certa forma achei esse rompimento muito ruim, porque não sabia como e exatamente por que o Koichi Tohei havia mudado de idéia quanto ao Aikikai.

Mas… Ele era um bom líder. Tinha carisma. Era forte, positivo. Sempre falava tudo diretamente. Ele era muito bom, um chefe fácil e tranqüilo. Por um lado detestei isso ter acontecido, mas por outro lado foi uma mudança positiva.

O Aikido se tornou mais claro, o aspecto da técnica em si. É bem mais claro o que ensinamos hoje. Sabe… Aquelas coisas do Tohei… Braço não-dobrável, ki, ki, ki… Muita filosofia, pouca técnica básica. Então por um lado é bom que tenha acontecido assim. Também foi bom o que aconteceu com o Saotome. As pessoas que foram com ele… Limpou a casa de certa maneira.

Então apesar de ter uma relação pessoal próxima com Koichi Sensei, você não quis se separar?
Eu fui bem franco. Ele tinha tanta certeza que eu iria com ele… Foi um erro de cálculo muito, muito grande da parte dele. Ele não tinha dúvidas de que eu o apoiaria. Eu tinha muita influência… Ele achou que teria todos os Estados Unidos. Eu lhe escrevi, “Eu positivamente lhe respeito, ainda o considero como um professor, mas ouvi lados diferentes dessa história, das razões pelas quais você está saindo da organização.

Tenho uma responsabilidade quanto aos meus alunos. Se estivesse só por minha conta, talvez fosse com você, mas não posso.” E essa é outra coisa boa nele. Ele me escreveu uma carta simpática dizendo, “Entendo sua situação, que é muito clara.” Ele foi muito amável e não tive problemas quanto a isso. Mas antes disso, ele não tinha dúvidas que eu iria junto.

Ele também achou que os outros iriam com ele?
Isso eu não sei. Provavelmente. Acho que ele é um homem muito confiante… Achava que os Estados Unidos estavam com ele, então talvez tenha pensado que sim, mas não foi como aconteceu. Até mesmo no Havaí, que era seu próprio território, eles também não o seguiram.

Yoshioka estava encarregado lá, mas ele também não saiu. Yoshioka era uma pessoa bem antiquada. Sua mentalidade era muito leal, sabe? A instituição é a instituição. Vem primeiro lugar. É nosso dever. Pessoalmente, gosto do Tohei Sensei. Mas faço parte de uma organização. Algumas pessoas saíram com ele e depois se separaram dele também. Todos fizeram a mesma coisa que ele fez.

Isso é interessante. Quando um grupo se divide, as pessoas freqüentemente tornam a se dividir
É como uma reação nuclear, divide, divide, divide.

Você acha que as pessoas enfatizaram mais o aspecto técnico do Aikido como resultado disso?
Acho. As pessoas mais sossegadas, mais tranqüilas, tinham uma atração por Tohei Sensei. Pessoas que não querem treinar muito arduamente, que não querem sofrer. Ele as atraía com aquela filosofia de ensino. Era fácil de fazer. O treino não era tão puxado. Por isso falo que foi bom que tudo aconteceu. Esse pessoal foi com ele e nós não precisamos deles.

É claro que Tohei Sensei tinha muitas coisas boas para oferecer. Inclusive muitas coisas que faço hoje, aprendi com ele. Mas jamais poderia fazer aquilo cem por cento do tempo. Impossível. Mas ele nos deu alguns pontos muito bons. Benéficos. Não há dúvida. Mas não gosto de ser parcial e insistir que tem que ser só desse jeito.

Sensei, você poderia falar um pouco mais sobre o grupo que permaneceu unido? Sobre nossa forma de treinar com mais ênfase no aspecto técnico, na prática árdua? Por que você acha isso importante ?
Porque no final das contas, as pessoas falam sobre esses aspectos espirituais das artes marciais, budo, mas o budo é, ainda assim, um compromisso físico, contato físico. Você aprende com seu corpo praticando movimentos físicos. Por isso digo que não gosto dessa abordagem demasiadamente parcial, enfatizando apenas o lado espiritual. Além disso, gosto de manter a pureza da arte que aprendi com O-Sensei, que é o que acredito que esteja fazendo.

E os outros uchi deshi que estavam no seu grupo compartilhavam dessa mesma abordagem?
Creio que sim. Ângulos diferentes, é claro, mas isso é que é bom no Aikido. Todo mundo é diferente, desde que não vá longe demais. Há estilos diferentes, as pessoas estudaram em diferentes épocas com O-Sensei, e portanto foram expostas a coisas diferentes. Basicamente, há uma similaridade entre nós… Sugano, Chiba, Kanai, diferentes abordagens, diferentes ângulos, mas isso é natural.

Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
(… Continua)


“Sou iniciante. Estou atrapalhando o treino dos outros?”

Chegar num lugar novo onde não conhecemos o protocolo e nem as pessoas sempre causa um certo desconforto, sobretudo para os mais tímidos. Note que não estou falando de aikido, mas de qualquer atividade. Uma das lembranças mais antigas que tenho é do primeiro dia de aula no jardim da infância, quando minha mãe me abandonou deixou na escola sozinho com aquelas pessoas estranhas. Chorei a valer naquele dia, mas, ao final de uma semana, já tinha amigos e até uma namorada (que até hoje não sabe que era minha namorada, claro).

No aikido, é relativamente comum um iniciante achar que está atrapalhando o treino dos mais antigos. Normalmente, esse sentimento dura algumas poucas aulas, principalmente para os mais assíduos. Logo, o novo aluno percebe que as pessoas, em geral, são gentis e conhecem muito bem as dificuldades do começo.

O fato (falo pela minha experiência como aluno e instrutor) é que iniciantes aprendem muito mais rapidamente e de uma forma muito mais divertida quando praticam com alunos mais antigos. Por isso, sou completamente contra a divisão de turmas entre iniciantes e avançados. Além disso, também não sou afeito aos famosos yudanshakais (ou treinos para faixas-pretas), mas vou deixar esse assunto pra outro dia.

A importância de se treinar com iniciantes

Para os mais experientes, variar o tipo de treino é fundamental. Sim, as mesmas técnicas podem e devem ser praticadas com diferentes enfoques (treino lento e bem estruturado, fluido, mais marcial, mais didático…), pois é dessa diversidade de experiências que surge um aikido mais rico e fecundo.

Um desses tipos de treino é, sem dúvida, a prática com iniciantes. Fazer aikido com alguém que não tem vícios e que precisa ser conduzido pelas técnicas, além de ser gratificante, é de uma riqueza ímpar. Faz com que você tenha que formular internamente algumas coisas sobre as quais jamais pensou de modo racional. Faz você entender como alguém responde ao que você faz e à forma como se comunica. Faz com que você, ao tentar entender o outro, entenda melhor a si próprio. E dessa forma, acredite, seu aikido efetivamente melhora.

Para que isso aconteça, ambas as partes (iniciados e iniciantes) têm de estar dispostas e disponíveis. Os alunos antigos podem e devem ajudar, tomando a iniciativa de abordar os mais novos na hora de formar duplas ou grupos no tatame. Não há razão alguma para timidez ao se chamar alguém pra treinar. É mais ou menos como aquela minha namorada do jardim da infância. Uma vez, na festa junina da escola, eu queria dançar com ela, mas ela não sabia que era minha namorada. Daí… Bom, deixa pra lá.


Engate a quinta e acelere (ou: A importância da frequência na prática do aikido)

Nota: Este é o segundo dos 5 assuntos que o Karam pediu que eu abordasse.

Pra quem não sabe dirigir, vou explicar aqui rapidamente*:

  1. Entre no carro,
  2. Acomode-se confortavelmente,
  3. Ajuste os 3 retrovisores de modo que você consiga ver o que se passa à sua volta,
  4. Coloque o cinto de segurança,
  5. Ligue as luzes,
  6. Gire a chave,
  7. Dê seta para avisar que você vai sair,
  8. Olhe à frente,
  9. Olhe também no retrovisor,
  10. Olhe em volta,
  11. Pise na embreagem,
  12. Engate a primeira,
  13. Olhe em volta novamente (nunca se sabe quando um motoboy vai aparecer!),
  14. Acelere,
  15. Torça pro carro não morrer,
  16. Solte a embreagem,
  17. Cuide do volante!
  18. Pise na embreagem novamente,
  19. Engate a segunda,
  20. A esquina está chegando, ligue a seta…

Cara! Dirigir é difícil pra caramba! Requer atenção e ações coordenadas e direcionadas a um monte de coisas. Por isso, nas primeiras vezes em que você conduz um veículo, a coisa parece uma aventura. Depois, com a prática diária, tudo se torna tão natural que você simplesmente para de racionalizar cada ato e dá até pra ouvir uma musiquinha e pensar no menu do jantar.

Nesse aspecto, a diferença entre o ato de dirigir e o de praticar aikido é que você exercita suas habilidades como motorista diariamente… e o faz com uma baita concentração, aproveitando cada momento de aprendizado. Para os motoristas em geral, dirigir todos os dias não é uma opção. E se o cara dirigiu mal hoje, isso provavelmente não o fará ir de taxi amanhã. Já no aikido, você tem uma espécie de contrato consigo mesmo que é renovado a cada vez que você pisa no tatame.

O treino de aikido é baseado em repetição, ou seja, praticamos uma técnica repetidas vezes com a intenção de que nosso corpo aprenda e acostume-se com aqueles movimentos a ponto de torná-los instintivos.

No volante e no aikido as coisas acontecem muito rápido à sua frente. Assim como você freia ou troca uma marcha, o objetivo é que, uma vez que uma determinada situação se apresente, seu corpo reaja de forma natural e instintiva. Mas, para que isso aconteça, esse conhecimento deve estar bem sedimentado aí dentro de você… E a única forma de fazer isso acontecer é treinando, treinando… e treinando.

Assistir a vídeos, ler livros e sites, conversar com outros praticantes ou qualquer forma de exercício teórico de aikido pode te ajudar a expandir seus horizontes, mas nada substitui a prática física. Não adianta mentalizar um movimento 50 mil vezes. Seu corpo precisa executá-lo 50 mil vezes.

Tudo isso, meus caros, pra dizer o quanto a frequência é importante. Especialmente quando essa frequência estiver aliada à concentração. Ou será que você pratica aikido pensando no menu do jantar?

* Se você quer aprender a dirigir, vá à Auto Escola, ok?


Nota de falecimento: Kawai Sensei (28/02/1931 – 26/01/2010)

Foi com grande tristeza que recebi nesta manhã a nota informando o falecimento do shihan Reishin Kawai, 8º Dan, introdutor do Aikido no Brasil. Em nome do Senshin Dojo, torno público nosso pesar e deixo aqui nossa sincera homenagem àquele que deu início ao aikido no nosso país.

Abaixo, trecho da nota oficial:

Lamentamos muito informar o falecimento de Kawai Sensei. Há alguns anos Kawai Sensei foi operado da próstata por conta de um tumor, e também realizava hemodiálise semanalmente. No início desta semana, sofreu um AVC, vindo a falecer na noite de ontem.
O enterro será realizado às 17h no Cemitério de Congonhas, localizado na Rua Ministro Alvaro de Souza Lima, 101, Jardim Marajoara (distante cerca de 3km do Aeroporto de Congonhas, em direção a Interlagos).

Reishin Kawai Sensei (28/02/1931 – 27/01/2010)


Medo de sofrer ou provocar uma lesão

Nota: após meu último post, nosso amigo Karam levantou algumas boas questões às quais comentarei nos próximos dias. Esta é a primeira da série.

A primeira vista, uma arte marcial pode parecer algo perigoso, uma vez que a maioria das pessoas pensa nisso como “pessoas batendo em outras pessoas”. Mas sejamos racionais:

Onde (e com quem) você está?

O dojo é um ambiente controlado, ou seja:

  • Você sabe o que acontecerá a seguir;
  • Você sabe como deve proceder;
  • Seu parceiro de treino não é um inimigo, mas sim um companheiro que está ali para aprender como você e com você.
  • Há um instrutor com experiência, capacidade e responsabilidade que se certifica de que todos têm capacidade para executar os movimentos propostos. E qualquer bom instrutor sabe que segurança precisa ser prioridade no tatame. É ela (a segurança) que faz com que as pessoas voltem dia após dia, pratiquem e evoluam. Além disso, quando todos estão seguros a energia no dojo é melhor.

Com que frequência ocorrem acidentes no aikido?

Em cerca de 15 anos de aikido, vi um único acidente relativamente grave no tatame (causado não por uma agressão, mas por pura distração) e já soube de apenas 2 ou 3 outros acidentes mais chatos.

No mesmo período, perdi as contas de quantos amigos machucaram-se seriamente andando de moto, jogando futebol ou correndo atrás de gaivotas em praias desertas.

Por que acontecem acidentes no tatame?

Já presenciei vários incidentes com pouca gravidade, como estiramentos, dedos quebrados, pés torcidos e coisas assim.

A imensa maioria desses episódios tem uma coisa em comum: ocorreram em momentos de descontração excessiva, e, principalmente, quando os envolvidos “treinavam” depois de terminada a aula.

Ocorre, que, após o término do treino, normalmente o nível de atenção e concentração cai. Além disso, muitas vezes, o instrutor não está mais presente. Creia-me: é quando a bruxa fica solta.

Hummm… Então nunca devo treinar fora da aula?

Você já deve ter ouvido dizer que a maioria dos acidentes automobilísticos ocorre a poucos quarteirões de casa, quando o motorista relaxa e fica desatento. Pois é. Não há problemas em se treinar fora do horário de aula, mas é fundamental que isso seja feito com concentração e segurança (de preferência, na presença de alguém com experiência).

Ainda sobre isso, é interessante notar como toda a formalidade no protocolo do aikido (que para alguns pode parecer meio inútil) leva, naturalmente a um nível de atenção mais elevado. Recomendo que, ao treinar fora de aula, faça todas as reverências e mantenha o protocolo de treino.

Sinto um certo desconforto ao cair. O que há de errado?

Nada. Trata-se do seu corpo em fase de adaptação a novos movimentos. Muitas vezes, um iniciante consegue executar de forma satisfatória um rolamento, mas, mesmo assim, sente um certo incômodo… Ora, rolar no chão é algo que as pessoas, em geral,  não estão acostumadas.

Por mais que eu diga a você o que fazer, nossos corpos são diferentes, nossa consciência corporal e nossos reflexos são diferentes. É absolutamente natural que seu corpo reclame no começo.

Mas acredite: isso não é ruim. Desde que você não esteja se machucando pra valer, esses desconfortos, somados à prática frequente, fazem com que seu corpo descubra a forma ideal para executar cada movimento.

E, quando isso acontecer, vou gostar de cair?

Algumas pessoas acham que é masoquismo, mas a verdade pura e simples é que cair é uma delícia. Receber uma técnica, “voar” com o corpo relaxado por alguns momentos e chegar ao chão sem se machucar é uma verdadeira terapia anti-estresse. E além disso, não há maneira melhor de se aprender aikido do que recebendo as técnicas.

Mas.. e se não me sinto apto a executar um movimento durante a aula?

Comunique sua insegurança ao instrutor. Ele está ali para orientá-lo e protegê-lo, mas não possui poderes que o permitam sentir as suas dores ou medos. Nunca tenha vergonha de se dirigir ao instrutor com uma dúvida ou insegurança referente às técnicas. O tatame não é lugar para esse tipo de coisa. Ali, todos estão fazendo seu melhor para aprender e evoluir. Lembre-se que os mais experientes também já foram iniciantes um dia e passaram por todas essas dificuldades. Eles terão prazer em ajudá-lo.

E quanto ao meu parceiro de treino, como me certificar de que não vou machucá-lo?

Tente sempre entender os limites do seu parceiro e respeite-os. Mantenha a intensidade do treino, bem como a velocidade das técnicas, adequada à experiência dele.

Treine de forma séria e concentrada, mas seja gentil e compreensivo quanto às motivações do seu companheiro, afinal ele está “emprestando seu corpo” para que você possa praticar e se desenvolver. Lembre-se: nem todas as pessoas estão sobre o tatame pela mesma razão, mas todas devem ser respeitadas igualmente.


Fórmula pra ficar bom de aikido

O que faz alguém ficar bom em aikido?
Vou simplificar aqui resumindo tudo a 5 aspectos: frequência, boa instrução, compromisso, talento e sorte.

Frequência

Quanto mais você você treina, melhor. O ideal é treinar todos os dias, desde que, claro, seu corpo aguente isso numa boa. Se você não pode praticar 7 dias por semana, faça como eu: pratique 6. Se não pode 6, tente 5. Ou 4, 3, 2… Se você gosta de aikido e tem a possibilidade de praticar uma única vez por semana, não há problemas. Vá e aproveite ao máximo, mas é claro que sua evolução será mais lenta.

Boa instrução

Há professores ruins que têm alunos bons e há professores ótimos que têm alunos ruins. Mas, sem dúvida, ter um bom professor ajuda e muito. Faz com que você não perca tempo demais errando. Muita gente dedicou a vida a encontrar algumas respostas e se você tiver que fazer isso tudo de novo, simplesmente não vai dar tempo. Um bom instrutor também te deixa quebrar a cabeça às vezes, porque apesar do meu argumento anterior, é ótimo que você seja capaz de procurar suas próprias respostas quando isso for necessário. Por último, um bom instrutor nem sempre é o melhor técnico, mas sempre te dá condições, liberdade e incentivo para que você aprenda, veja coisas diferentes e mantenha sua visão aberta e saudável. O mau professor quer apenas que você fique sob sua asa. O bom professor quer muito que você fique bom.

Compromisso

Este é o aspecto mais importante até agora, porque, de certa forma, engloba os anteriores. O ponto aqui é: se você se propôs a fazer algo, faça de corpo e alma. Compromisso é treinar o máximo possível. É treinar certo, com foco. É buscar boa instrução, ir a seminários, ver o que os outros estão fazendo de bom. É falar menos e fazer mais. É abolir treinos mecânicos, dando mais vida ao seu aikido. É, sobretudo, quando você estiver exausto e começar a ficar desleixado, lembrar-se que fazer de qualquer jeito cansa o mesmo que fazer direito.

Não quero com isso dizer que o aikido tem que ser a prioridade número 1 na sua vida. Você tem sua família, seu trabalho, outras atividades… E é absolutamente legítimo se você considerar o aikido como sua oitava, talvez nona, prioridade. Mas o tema deste artigo é “o que é preciso pra ficar bom” e compromisso é fundamental.

Talento

O mundo não é justo e eu não vou ser hipócrita: é óbvio que talento ajuda… desde que o talentoso faça a parte dele. Mas isso não quer dizer que, para praticar aikido, você precisa ter um dom. Até porque seu talento muitas vezes aflora à medida em que você treina seriamente. Já vi muitos talentosos que nunca ficaram bons… e já vi gente que tinha bastante dificuldade evoluir até níveis bem altos. Uma vez vi sensei Donovan responder com uma certa indignação a alguém que exaltava seu “incrível talento”: “Talento? Eu treino há mais de 40 anos, várias horas quase todos os dias. Não reduza meu suor a talento”. Dizer que alguém é muito talentoso, algumas vezes é uma desculpa para nossa própria falta de empenho. Pense nisso.

Sorte

Tenho um amigo que diz: “Sem sorte, não dá nem pra comer um Sonho de Valsa. O papel gruda, o chocolate derrete, o telefone toca, seu amigo pede um pedaço…”.
É chato, mas é verdade. Não importa em que cidade do Brasil você mora, mas certamente, você sabe o que é futebol. Com certeza já andou chutando bola por aí. Talvez tenha gostado, talvez não. Talvez tenha talento e vontade, talvez não. Agora, se você mora em Inhaúmas, é bem possível que não haja um dojo de aikido por perto (escrevi a primeira cidade que me veio à cabeça. Se houver um super dojo em Inhaúmas, peço que me desculpem e corrijam). É claro que se o cidadão inhaumense (“inhaumense, Tharso?”) tiver o sonho de treinar aikido, ele vai batalhar por isso e tem boas chances de conseguir. Mas quando falo em sorte, penso no cara que teria tudo pra ser ótimo, mas que passará a vida sem nem saber o que é aikido. Você tem que ter a sorte de conhecer aikido, ter um dojo perto, horários compatíveis, encontrar um bom professor num momento em que ainda não tem repertório para escolher um… enfim, há alguns fatores imponderáveis. Mas se você leu este texto até aqui, acho que já superou essa parte.

Povo de Inhaúmas, espero vocês no dojo!


Alô, alô, testando…

Há tempos, eu queria uma câmera pequena e fácil de transportar, que fizesse boas fotos e gravasse vídeo em HD. No fim do ano passado, finalmente dei-me de presente uma Leica D-LUX4, que foi a câmera compacta mais legal que consegui encontrar.

Minha ideia é gravar o máximo de material possível, tanto no Senshin quanto no Tsurugui (pra quem não sabe, atualmente moro em São Paulo e, durante a semana, treino lá).

Ainda estou fazendo testes de luz, posicionamento, configurações etc, mas já deu pra brincar um pouquinho. O resultado do primeiro teste está no vídeo aí embaixo. Foi a aula que dei no Tsurugui no dia 04/01/2010. Como já era esperado, fiz um monte de besteiras: posicionei mal a câmera, esqueci de gravar algumas técnicas… Mas enfim, é um começo. Abração e feliz 2010!


Linha do tempo II

Como parece que a ideia agradou, criei um endereço permanente para a nossa linha do tempo. Ela ficará em http://senshin.com.br/linha-do-tempo/.

Como eu disse antes, nossa timeline ainda é BETA, ou seja, está em construção, com poucos eventos e informações, mas já está sendo incrementada com os inputs que estão chegando aqui.


Linha do tempo

Como promessa é dívida, este post é pra apresentar a “Retrospectiva Senshin 2009″. Mas quando comecei a escrever, percebi que talvez fosse esquecer de alguma coisa importante, então tive uma ideia: criei uma linha do tempo do dojo. Sim, uma linha do tempo me pareceu um formato bacana pra registrar todos os fatos e eventos relevantes para o Senshin e seus membros. E a melhor parte é que ela pode continuar sendo constantemente atualizada. E, além disso, não preciso lembrar de tudo o que aconteceu até hoje de uma vez só. ;-)

A ideia é que vocês todos que se lembram de algo, comentem neste post ou me escrevam no tharso@senshin.com.br. Mandem informações, fotos e vídeos.

“Mas Tharso, que tipo de evento é relevante pro dojo?”

Ok, ok… Sabia que vocês perguntariam isso. É o seguinte: seminários, exames, aulas especiais, nascimento de filhas do Clauber, visitas ao dojo, viagens “aikidoísticas”, inaugurações e acho que já tá bom. Mas se alguém lembrar de mais alguma coisa, é só dizer. Bom, aí vai. Espero que gostem.


Passando pra dar um alô

Salve! Passando por aqui depois de vários dias sem acesso à internet pra dizer que ainda pretendo conseguir tempo pra escrever um post decente de fim de ano, com uma “Retrospectiva Senshin 2009″.

Por ora, espero que todos tenham tido um ótimo natal e que estejam aproveitando esse fim de ano.

Ah, e só pra lembrar: o dojo volta às aulas no dia 5 de janeiro.

Beijão procêis, pessoas! =)


Entrevista: Yamada Sensei (parte 3)

(Por Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan)

Nota do editor: Esta é a terceira parte da entrevista com Yamada Sensei que aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. No trecho a seguir, Yamada Sensei de sua ida para os Estados Unidos, em 64 e da separação de Koichi Tohei do Aikikai. (você também pode acessar a primeira parte da entrevista, a segunda parte e a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online). Mais uma vez, agradecemos à Cris pela tradução.

Yamada Sensei

Sensei, como você acabou vindo para os Estados Unidos?
Houve várias razões na verdade. A primeira foi por causa do idioma. Eu já falava inglês, não tão bem como agora, mas falava alguma coisa. Esse foi um motivo. Em segundo lugar, dava aula para os americanos nas bases militares no Japão, portanto estava familiarizado com a mentalidade desse povo. E também porque eu queria vir para Nova York. Sabia que Nova York era o meu tipo de cidade.

Eu tinha conhecido algumas pessoas daqui que já estavam praticando e sabiam o que era Aikido. Essa foi a razão principal. Eu vim em 1964, na época da Feira Mundial em Nova York. Inicialmente, (Koichi) Tohei Sensei estaria comigo nessa feira para fazer demonstrações de Aikido no pavilhão japonês, mas ele não pôde vir.

Por que ele não pôde vir?
Bom, não sei se eu deveria falar, mas ele estava bêbado uma noite, caiu e quebrou as costas. Acho que isso aconteceu umas duas semanas antes de nossa partida. É por isso que ele tem tanto problema com suas costas até hoje, resquícios daquele acidente.

Yamada Sensei

Então você permaneceu em Nova York após a Feira?
Bom, eu não sabia quanto tempo iria ficar. Eu achava que alguns meses, algo assim, mas, ainda estou aqui. Como eu disse, nenhum de nós achava possível se sustentar com o Aikido. A coisa meio que aconteceu. Tamura conhecia algumas pessoas na França, então ele já tinha um contato. A mesma coisa com o Chiba na Inglaterra. O Sugano casou com uma australiana e se mudou para lá com ela. Sei que as pessoas gostam de imaginar que havia um grande plano do Hombu Dojo, mas isso não é verdade. Não foi planejado, nós simplesmente fizemos tudo por nossa conta.

Você era casado nessa época, não era?
Sim, mas não pude trazer minha esposa até bem depois. Eu não tinha dinheiro e estava tendo muitos problemas com meu visto. Eu tinha um advogado imbecil. Se ele tivesse me conseguido um visto de turista logo no início eu não teria tido qualquer problema para conseguir o green card. Naquela época era fácil, mas eu tinha esse tipo especial de visto de intercâmbio cultural. Eles não têm mais isso, mas como era o que eu tinha, me deu muito trabalho para obter o green card. Nunca sabia se eles iam me mandar embora.

Depois, com a família aqui, especialmente meus dois filhos que nasceram aqui e cresceram como cidadãos americanos, eles tinham que pensar antes de me chutar para fora. Porque era obrigação deles proteger os cidadãos americanos. Eles não se importavam comigo, minha esposa ou Mika, minha primogênita nascida no Japão, apenas com meus filhos americanos.

Uma vez me disseram: “OK, deixe os seus dois filhos americanos aqui e vá para casa. Você, sua mulher e sua filha mais velha simplesmente vão embora. Inacreditável! Então tive que arranjar um monte de desculpas relacionadas aos meus filhos, do porquê eu não podia ir embora. Só por isso eles me deixaram ficar”.

A primeira desculpa que usei foi que se eu voltasse para o Japão, não ganharia o suficiente para sustentar a família. Minha empresa, que era o Aikikai, Hombu Dojo, não podia me pagar o bastante para sustentar dois cidadãos americanos. Então eles tiveram que reconsiderar. Claro que tive que pedir para o Hombu Dojo escrever uma carta dizendo o quanto eles iriam me pagar se eu voltasse a ensinar lá. Levei a carta para a imigração e levou de 3 a 4 meses para eles tomarem uma decisão. Então finalmente disseram não, você tem que ir embora.

Então, a próxima desculpa, pelo que me lembro, foi a saúde das crianças. Disse que o Japão era muito úmido, não era um bom lugar para um bebê crescer, um cidadão americano. Então de novo eles reconsideraram mais um pouco. Naquele tempo um de meus alunos trabalhava na imigração. Toda vez que ele ia até a escrivaninha e via meus documentos, os colocava de volta em baixo da pilha! (risos). Tentei de tudo. Não sei quantas vezes fui à imigração. Odiava fazer isso.

Agora, tem uma coisa boa que o Presidente Nixon fez, ele cancelou aquele programa de visto para intercâmbio cultural. Portanto, de repente, eu não tinha mais um status definido. Eu era livre. Porque uma vez residente você não pode deixar de ser. Ponto. É a lei. Então, a primeira coisa que você deveria fazer era pegar a permissão do Departamento de Trabalho. Peguei essa permissão da imigração e Departamento de Trabalho. Eles colocavam um anúncio no New York Times: “alguém tem uma graduação maior do que a minha em Aikido?” Se um americano se apresentasse, eu não recebia o visto. Eles não querem que você pegue o trabalho dos americanos.

Mas aí, depois de tudo esclarecido, tive a permissão para ficar. Por isso tive que enviar minha família de volta ao Japão, mesmo sendo cidadãos americanos e tendo passaportes americanos; porque eu não sabia quando eles iriam me mandar para fora do país e não os queria presos a mim nessa hora. Naquela época você podia ir para o Canadá por um dia e retornar como turista. Mas eu não tinha o visto de turista, não podia fazer isso. Se deixasse o país, era o fim. Não poderia voltar por dois anos. Por isso mandei minha família de volta.

Quanto tempo eles ficaram longe?
Bom, eles começaram a estudar lá. Ainda bem que minha família podia tomar conta deles. Não havia como sustentá-los com minha receita de Aikido naquela época. Como eu ia fazer? Sinto-me mal quanto à minha família, não tenho muitas lembranças com as crianças. Estávamos separados, e, quando eles retornaram, eu estava ocupado, e não estávamos tão bem financeiramente quanto hoje.

Eu não podia simplesmente levá-los para onde eu ia. Para um seminário, de jeito nenhum, impossível. Levei Nima uma vez para um Summer Camp quando era pequena. Esse é meu único grande arrependimento, o tempo que não passei junto à minha família.

Como eram as aulas no New York Aikikai nessa época, nos primórdios?
No início, todos os alunos eram ex-praticantes de judô ou karatê. Eles eram os únicos interessados. Nós não anunciávamos publicamente. Também havia o pessoal do Tai-Chi. Enquanto dava aula, podia escutá-los no vestiário discutindo tudo, as técnicas, a efetividade. Havia um cara, Lou Kleinsmith, que era instrutor de judô e professor de Tai-Chi e era meio metido a esperto. Ele sempre falava para o pessoal “É assim que realmente funciona, blá, blá,blá”, e mostrava algum truquezinho ou coisa parecida. Claro que não era Aikido. (risos).

Então, mais ou menos nesse período, começou a febre do karatê. Eu tinha bom relacionamento com todos os professores americanos de karatê, portanto, toda vez que eles tinham um torneio, me convidavam para fazer demonstrações no Madison Square Garden e em outros lugares. Me convidavam quase toda semana. Claro que não me pagavam, mas era uma boa oportunidade de difundir o Aikido.
Yamada Sensei - Demonstração

Então as pessoas que viam as demonstrações…
Sim. Toda vez que eu fazia uma demonstração eles adoravam. Depois de ficar vendo karatê por 3 a 4 horas, eles se cansavam daquilo e queriam algo novo, diferente. Eu entrava no palco, não ficava muito tempo, só bam, bam, bam e acabou. As pessoas nunca haviam visto nada parecido. Eles adoravam. No dia seguinte, apareciam no dojo.

Então isso realmente ajudou o Dojo a crescer?
Ajudou, porque essa é a única forma de se fazer propaganda. É o único jeito de fazer com que as pessoas saibam o que é o Aikido. Por isso não gosto mais de fazer demonstrações. Fiz tantas que me cansei disso. Foi um exagero. Mas nós aproveitávamos qualquer oportunidade.

Fiz uma demonstração nas ruas do South Bronx, no asfalto. Era inverno, portanto eu estava usando luvas pretas. Me lembro de um cara dizendo, ‘Oh, ele é um matador, tem luvas pretas!’ (risos). Naquele tempo muita gente tinha idéias doidas sobre as artes marciais. Sabe como é… Eles copiavam o Bruce Lee do seriado de televisão que existia.

O “Besouro Verde”?
Isso mesmo. Esse programa ajudou muito a trazer popularidade às artes marciais, mais interesse. E tinha um outro cara … fiz uma demonstração com ele, aquele astro de cinema … ele faz o Texas Ranger hoje.

Chuck Norris?
Isso, ele. Chuck Norris. Um cara legal. Costumávamos fazer demonstrações juntos. Ele gosta de Aikido. Fizemos uma demonstração no Hilton de Nova York.

Certa vez fiz uma demonstração com um professor de karatê. Foi engraçado, meus alunos eram muito maldosos. Ele fez uma demonstração na qual ele cortava fora o gargalo de duas garrafas de uísque com as mãos… bam, bam, bam. Então meus alunos brincavam, “o pessoal do karatê vai e arranca os gargalos do uísque e o pessoal do Aikido vem e bebe.” (risos)

Parecem tempos selvagens.
Sim, era selvagem.

Quem eram algumas das primeiras pessoas no dojo?
Bom, deixe-me ver. No início eu não tinha onde morar, então dormia no dojo, no vestiário, com Angel Alvarez. Angel era uchideshi. Era um garoto de 13 anos. Ele estava estudando. Não me lembro exatamente como ele foi parar no Dojo. Terei que perguntar a ele. Mas no Dojo antigo nós morávamos juntos. Ele ia pra escola depois do treino. Era um menino bonitinho, inocente, sabe?

Isso é difícil de acreditar (risos). Ele foi o primeiro uchideshi no New York Aikikai ?
Mais ou menos, sim. Ele foi o primeiro.

Embaixo: Sunil; Acima dele: Chuck, Ben e Heidi; Em cima: Clauber, Eduardinho, Tharso e Angel Alvarez - dobrando o hakama -, o primeiro uchideshi do New York Aikikai.

Embaixo: Sunil; Acima dele: Chuck, Heidi e Ben. Em cima: Clauber, Eduardinho, Tharso e Angel Alvarez, o primeiro uchideshi do New York Aikikai.

Então ele estava lá antes do Harvey?
Estava. O Harvey veio depois do Harry McCormack. Acho que Harry o apresentou ao Aikido. Mike Abrams já estava lá. Ele estava cursando o último ano da faculdade ou coisa assim.

Quantos membros havia no New York Aikikai nos dois primeiros anos?
Talvez 50 membros pagantes. Como disse, naquela época eles não tinham condições de alugar um apartamento para mim. Não havia dinheiro sobrando, só o suficiente para pagar o aluguel e a luz. Eu havia trazido alguns dólares comigo do Japão. Se não fosse isso, não teria durado muito.

Menti para o meu pai quando vim para cá, dizendo que ia para a Columbia University. Foi assim que consegui que me desse dinheiro para ficar. Fui lá um dia (risos). Fazia um curso de inglês. Tudo que eles me ensinavam era ‘This is a pen… is this a pen?”. Eu pensei “que diabo…” (risos). Não preciso pagar por isso. Já sei o que é uma caneta! (risos).

Prefiro ir à um bar e aprender inglês “vivo”. E foi o que fiz. Foi assim que aperfeiçoei meu inglês. Mas tinha que mostrar para meu pai que freqüentava a faculdade. Era só por isso que ele me mandava dinheiro.

Quando você começou a pensar em fundar a USAF (Unites States Aikido Federation)?
Posso pensar em duas razões: uma foi por causa do rompimento de (Koichi) Tohei Sensei com o Aikikai. Tínhamos que ter nossa própria identidade. E também, por causa da fundação da International Aikido Federation. Fomos mais ou menos forçados a nos unir rapidamente. Não fomos avisados de nada até tudo já estar estabelecido, porque era uma situação mais européia.

Então o Chiba nos perguntou se iríamos aderir. Falamos OK, e ele então disse que teríamos que formar uma federação nacional para entrar como membro. Foi por isso que começamos. Tivemos que fazer inúmeras reuniões para organizar tudo isso. Yoshioka, no Havaí, cooperou. Juntamos um bom grupo de pessoas. Bill Witt, Frank Doran, Bob Nadeau… O grupo da Costa Oeste.

Quem era o Shihan aqui na época?
Kanai Sensei, claro. Akira Tohei Sensei estava em Chicago na época… Ele ficou no Havaí antes disso por um bom tempo. Na verdade, ele estava no Havaí quando eu estava a caminho de Nova York em 1964. Dei uma passada lá para encontrá-lo. Ele foi enviado para ficar lá pelo período de dois anos. Naquele tempo ele era aluno direto do Koichi Tohei. Por isso Tohei Sensei o mandou para lá. Então ele retornou ao Japão por um tempo, e depois foi para Chicago.

Então a USAF foi formada depois da saída de Koichi Tohei Sensei do Aikikai?
Foi. Nós já tínhamos alguma coisa como uma associação na Costa Leste, mas nada nacional.

Imagino que foi um período difícil quando Koichi Tohei saiu.
Foi. Foi uma grande ruptura. Alguns dos professores japoneses foram com ele. Na maioria os alunos diretos mais antigos de Tohei Sensei em sua cidade natal. Toyoda foi um dos que rompeu. E também Shuji Maruyama. Ele estava em Cleveland inicialmente. Tinha sido contratado por alguma escola de arte marcial de lá. Depois ele se mudou para a Filadélfia. Ele foi junto com o Tohei, o que foi bom para mim e Kanai. Ele era muito chato (risos). De certa forma achei esse rompimento muito ruim, porque não sabia como e exatamente por que o Koichi Tohei havia mudado de idéia quanto ao Aikikai.

Mas… Ele era um bom líder. Tinha carisma. Era forte, positivo. Sempre falava tudo diretamente. Ele era muito bom, um chefe fácil e tranqüilo. Por um lado detestei isso ter acontecido, mas por outro lado foi uma mudança positiva.

O Aikido se tornou mais claro, o aspecto da técnica em si. É bem mais claro o que ensinamos hoje. Sabe… Aquelas coisas do Tohei… Braço não-dobrável, ki, ki, ki… Muita filosofia, pouca técnica básica. Então por um lado é bom que tenha acontecido assim. Também foi bom o que aconteceu com o Saotome. As pessoas que foram com ele… Limpou a casa de certa maneira.

Então apesar de ter uma relação pessoal próxima com Koichi Sensei, você não quis se separar?
Eu fui bem franco. Ele tinha tanta certeza que eu iria com ele… Foi um erro de cálculo muito, muito grande da parte dele. Ele não tinha dúvidas de que eu o apoiaria. Eu tinha muita influência… Ele achou que teria todos os Estados Unidos. Eu lhe escrevi, “Eu positivamente lhe respeito, ainda o considero como um professor, mas ouvi lados diferentes dessa história, das razões pelas quais você está saindo da organização.

Tenho uma responsabilidade quanto aos meus alunos. Se estivesse só por minha conta, talvez fosse com você, mas não posso.” E essa é outra coisa boa nele. Ele me escreveu uma carta simpática dizendo, “Entendo sua situação, que é muito clara.” Ele foi muito amável e não tive problemas quanto a isso. Mas antes disso, ele não tinha dúvidas que eu iria junto.

Ele também achou que os outros iriam com ele?
Isso eu não sei. Provavelmente. Acho que ele é um homem muito confiante… Achava que os Estados Unidos estavam com ele, então talvez tenha pensado que sim, mas não foi como aconteceu. Até mesmo no Havaí, que era seu próprio território, eles também não o seguiram.

Yoshioka estava encarregado lá, mas ele também não saiu. Yoshioka era uma pessoa bem antiquada. Sua mentalidade era muito leal, sabe? A instituição é a instituição. Vem primeiro lugar. É nosso dever. Pessoalmente, gosto do Tohei Sensei. Mas faço parte de uma organização. Algumas pessoas saíram com ele e depois se separaram dele também. Todos fizeram a mesma coisa que ele fez.

Isso é interessante. Quando um grupo se divide, as pessoas freqüentemente tornam a se dividir
É como uma reação nuclear, divide, divide, divide.

Você acha que as pessoas enfatizaram mais o aspecto técnico do Aikido como resultado disso?
Acho. As pessoas mais sossegadas, mais tranqüilas, tinham uma atração por Tohei Sensei. Pessoas que não querem treinar muito arduamente, que não querem sofrer. Ele as atraía com aquela filosofia de ensino. Era fácil de fazer. O treino não era tão puxado. Por isso falo que foi bom que tudo aconteceu. Esse pessoal foi com ele e nós não precisamos deles.

É claro que Tohei Sensei tinha muitas coisas boas para oferecer. Inclusive muitas coisas que faço hoje, aprendi com ele. Mas jamais poderia fazer aquilo cem por cento do tempo. Impossível. Mas ele nos deu alguns pontos muito bons. Benéficos. Não há dúvida. Mas não gosto de ser parcial e insistir que tem que ser só desse jeito.

Sensei, você poderia falar um pouco mais sobre o grupo que permaneceu unido? Sobre nossa forma de treinar com mais ênfase no aspecto técnico, na prática árdua? Por que você acha isso importante ?
Porque no final das contas, as pessoas falam sobre esses aspectos espirituais das artes marciais, budo, mas o budo é, ainda assim, um compromisso físico, contato físico. Você aprende com seu corpo praticando movimentos físicos. Por isso digo que não gosto dessa abordagem demasiadamente parcial, enfatizando apenas o lado espiritual. Além disso, gosto de manter a pureza da arte que aprendi com O-Sensei, que é o que acredito que esteja fazendo.

E os outros uchi deshi que estavam no seu grupo compartilhavam dessa mesma abordagem?
Creio que sim. Ângulos diferentes, é claro, mas isso é que é bom no Aikido. Todo mundo é diferente, desde que não vá longe demais. Há estilos diferentes, as pessoas estudaram em diferentes épocas com O-Sensei, e portanto foram expostas a coisas diferentes. Basicamente, há uma similaridade entre nós… Sugano, Chiba, Kanai, diferentes abordagens, diferentes ângulos, mas isso é natural.

Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
(… Continua)


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