Entrevista: Yamada Sensei (parte 3)
(Por Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan)
Nota do editor: Esta é a terceira parte da entrevista com Yamada Sensei que aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. No trecho a seguir, Yamada Sensei de sua ida para os Estados Unidos, em 64 e da separação de Koichi Tohei do Aikikai. (você também pode acessar a primeira parte da entrevista, a segunda parte e a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online). Mais uma vez, agradecemos à Cris pela tradução.

Sensei, como você acabou vindo para os Estados Unidos?
Houve várias razões na verdade. A primeira foi por causa do idioma. Eu já falava inglês, não tão bem como agora, mas falava alguma coisa. Esse foi um motivo. Em segundo lugar, dava aula para os americanos nas bases militares no Japão, portanto estava familiarizado com a mentalidade desse povo. E também porque eu queria vir para Nova York. Sabia que Nova York era o meu tipo de cidade.
Eu tinha conhecido algumas pessoas daqui que já estavam praticando e sabiam o que era Aikido. Essa foi a razão principal. Eu vim em 1964, na época da Feira Mundial em Nova York. Inicialmente, (Koichi) Tohei Sensei estaria comigo nessa feira para fazer demonstrações de Aikido no pavilhão japonês, mas ele não pôde vir.
Por que ele não pôde vir?
Bom, não sei se eu deveria falar, mas ele estava bêbado uma noite, caiu e quebrou as costas. Acho que isso aconteceu umas duas semanas antes de nossa partida. É por isso que ele tem tanto problema com suas costas até hoje, resquícios daquele acidente.

Então você permaneceu em Nova York após a Feira?
Bom, eu não sabia quanto tempo iria ficar. Eu achava que alguns meses, algo assim, mas, ainda estou aqui. Como eu disse, nenhum de nós achava possível se sustentar com o Aikido. A coisa meio que aconteceu. Tamura conhecia algumas pessoas na França, então ele já tinha um contato. A mesma coisa com o Chiba na Inglaterra. O Sugano casou com uma australiana e se mudou para lá com ela. Sei que as pessoas gostam de imaginar que havia um grande plano do Hombu Dojo, mas isso não é verdade. Não foi planejado, nós simplesmente fizemos tudo por nossa conta.
Você era casado nessa época, não era?
Sim, mas não pude trazer minha esposa até bem depois. Eu não tinha dinheiro e estava tendo muitos problemas com meu visto. Eu tinha um advogado imbecil. Se ele tivesse me conseguido um visto de turista logo no início eu não teria tido qualquer problema para conseguir o green card. Naquela época era fácil, mas eu tinha esse tipo especial de visto de intercâmbio cultural. Eles não têm mais isso, mas como era o que eu tinha, me deu muito trabalho para obter o green card. Nunca sabia se eles iam me mandar embora.
Depois, com a família aqui, especialmente meus dois filhos que nasceram aqui e cresceram como cidadãos americanos, eles tinham que pensar antes de me chutar para fora. Porque era obrigação deles proteger os cidadãos americanos. Eles não se importavam comigo, minha esposa ou Mika, minha primogênita nascida no Japão, apenas com meus filhos americanos.
Uma vez me disseram: “OK, deixe os seus dois filhos americanos aqui e vá para casa. Você, sua mulher e sua filha mais velha simplesmente vão embora. Inacreditável! Então tive que arranjar um monte de desculpas relacionadas aos meus filhos, do porquê eu não podia ir embora. Só por isso eles me deixaram ficar”.
A primeira desculpa que usei foi que se eu voltasse para o Japão, não ganharia o suficiente para sustentar a família. Minha empresa, que era o Aikikai, Hombu Dojo, não podia me pagar o bastante para sustentar dois cidadãos americanos. Então eles tiveram que reconsiderar. Claro que tive que pedir para o Hombu Dojo escrever uma carta dizendo o quanto eles iriam me pagar se eu voltasse a ensinar lá. Levei a carta para a imigração e levou de 3 a 4 meses para eles tomarem uma decisão. Então finalmente disseram não, você tem que ir embora.
Então, a próxima desculpa, pelo que me lembro, foi a saúde das crianças. Disse que o Japão era muito úmido, não era um bom lugar para um bebê crescer, um cidadão americano. Então de novo eles reconsideraram mais um pouco. Naquele tempo um de meus alunos trabalhava na imigração. Toda vez que ele ia até a escrivaninha e via meus documentos, os colocava de volta em baixo da pilha! (risos). Tentei de tudo. Não sei quantas vezes fui à imigração. Odiava fazer isso.
Agora, tem uma coisa boa que o Presidente Nixon fez, ele cancelou aquele programa de visto para intercâmbio cultural. Portanto, de repente, eu não tinha mais um status definido. Eu era livre. Porque uma vez residente você não pode deixar de ser. Ponto. É a lei. Então, a primeira coisa que você deveria fazer era pegar a permissão do Departamento de Trabalho. Peguei essa permissão da imigração e Departamento de Trabalho. Eles colocavam um anúncio no New York Times: “alguém tem uma graduação maior do que a minha em Aikido?” Se um americano se apresentasse, eu não recebia o visto. Eles não querem que você pegue o trabalho dos americanos.
Mas aí, depois de tudo esclarecido, tive a permissão para ficar. Por isso tive que enviar minha família de volta ao Japão, mesmo sendo cidadãos americanos e tendo passaportes americanos; porque eu não sabia quando eles iriam me mandar para fora do país e não os queria presos a mim nessa hora. Naquela época você podia ir para o Canadá por um dia e retornar como turista. Mas eu não tinha o visto de turista, não podia fazer isso. Se deixasse o país, era o fim. Não poderia voltar por dois anos. Por isso mandei minha família de volta.
Quanto tempo eles ficaram longe?
Bom, eles começaram a estudar lá. Ainda bem que minha família podia tomar conta deles. Não havia como sustentá-los com minha receita de Aikido naquela época. Como eu ia fazer? Sinto-me mal quanto à minha família, não tenho muitas lembranças com as crianças. Estávamos separados, e, quando eles retornaram, eu estava ocupado, e não estávamos tão bem financeiramente quanto hoje.
Eu não podia simplesmente levá-los para onde eu ia. Para um seminário, de jeito nenhum, impossível. Levei Nima uma vez para um Summer Camp quando era pequena. Esse é meu único grande arrependimento, o tempo que não passei junto à minha família.
Como eram as aulas no New York Aikikai nessa época, nos primórdios?
No início, todos os alunos eram ex-praticantes de judô ou karatê. Eles eram os únicos interessados. Nós não anunciávamos publicamente. Também havia o pessoal do Tai-Chi. Enquanto dava aula, podia escutá-los no vestiário discutindo tudo, as técnicas, a efetividade. Havia um cara, Lou Kleinsmith, que era instrutor de judô e professor de Tai-Chi e era meio metido a esperto. Ele sempre falava para o pessoal “É assim que realmente funciona, blá, blá,blá”, e mostrava algum truquezinho ou coisa parecida. Claro que não era Aikido. (risos).
Então, mais ou menos nesse período, começou a febre do karatê. Eu tinha bom relacionamento com todos os professores americanos de karatê, portanto, toda vez que eles tinham um torneio, me convidavam para fazer demonstrações no Madison Square Garden e em outros lugares. Me convidavam quase toda semana. Claro que não me pagavam, mas era uma boa oportunidade de difundir o Aikido.

Então as pessoas que viam as demonstrações…
Sim. Toda vez que eu fazia uma demonstração eles adoravam. Depois de ficar vendo karatê por 3 a 4 horas, eles se cansavam daquilo e queriam algo novo, diferente. Eu entrava no palco, não ficava muito tempo, só bam, bam, bam e acabou. As pessoas nunca haviam visto nada parecido. Eles adoravam. No dia seguinte, apareciam no dojo.
Então isso realmente ajudou o Dojo a crescer?
Ajudou, porque essa é a única forma de se fazer propaganda. É o único jeito de fazer com que as pessoas saibam o que é o Aikido. Por isso não gosto mais de fazer demonstrações. Fiz tantas que me cansei disso. Foi um exagero. Mas nós aproveitávamos qualquer oportunidade.
Fiz uma demonstração nas ruas do South Bronx, no asfalto. Era inverno, portanto eu estava usando luvas pretas. Me lembro de um cara dizendo, ‘Oh, ele é um matador, tem luvas pretas!’ (risos). Naquele tempo muita gente tinha idéias doidas sobre as artes marciais. Sabe como é… Eles copiavam o Bruce Lee do seriado de televisão que existia.
O “Besouro Verde”?
Isso mesmo. Esse programa ajudou muito a trazer popularidade às artes marciais, mais interesse. E tinha um outro cara … fiz uma demonstração com ele, aquele astro de cinema … ele faz o Texas Ranger hoje.
Chuck Norris?
Isso, ele. Chuck Norris. Um cara legal. Costumávamos fazer demonstrações juntos. Ele gosta de Aikido. Fizemos uma demonstração no Hilton de Nova York.
Certa vez fiz uma demonstração com um professor de karatê. Foi engraçado, meus alunos eram muito maldosos. Ele fez uma demonstração na qual ele cortava fora o gargalo de duas garrafas de uísque com as mãos… bam, bam, bam. Então meus alunos brincavam, “o pessoal do karatê vai e arranca os gargalos do uísque e o pessoal do Aikido vem e bebe.” (risos)
Parecem tempos selvagens.
Sim, era selvagem.
Quem eram algumas das primeiras pessoas no dojo?
Bom, deixe-me ver. No início eu não tinha onde morar, então dormia no dojo, no vestiário, com Angel Alvarez. Angel era uchideshi. Era um garoto de 13 anos. Ele estava estudando. Não me lembro exatamente como ele foi parar no Dojo. Terei que perguntar a ele. Mas no Dojo antigo nós morávamos juntos. Ele ia pra escola depois do treino. Era um menino bonitinho, inocente, sabe?
Isso é difícil de acreditar (risos). Ele foi o primeiro uchideshi no New York Aikikai ?
Mais ou menos, sim. Ele foi o primeiro.

Embaixo: Sunil; Acima dele: Chuck, Heidi e Ben. Em cima: Clauber, Eduardinho, Tharso e Angel Alvarez, o primeiro uchideshi do New York Aikikai.
Então ele estava lá antes do Harvey?
Estava. O Harvey veio depois do Harry McCormack. Acho que Harry o apresentou ao Aikido. Mike Abrams já estava lá. Ele estava cursando o último ano da faculdade ou coisa assim.
Quantos membros havia no New York Aikikai nos dois primeiros anos?
Talvez 50 membros pagantes. Como disse, naquela época eles não tinham condições de alugar um apartamento para mim. Não havia dinheiro sobrando, só o suficiente para pagar o aluguel e a luz. Eu havia trazido alguns dólares comigo do Japão. Se não fosse isso, não teria durado muito.
Menti para o meu pai quando vim para cá, dizendo que ia para a Columbia University. Foi assim que consegui que me desse dinheiro para ficar. Fui lá um dia (risos). Fazia um curso de inglês. Tudo que eles me ensinavam era ‘This is a pen… is this a pen?”. Eu pensei “que diabo…” (risos). Não preciso pagar por isso. Já sei o que é uma caneta! (risos).
Prefiro ir à um bar e aprender inglês “vivo”. E foi o que fiz. Foi assim que aperfeiçoei meu inglês. Mas tinha que mostrar para meu pai que freqüentava a faculdade. Era só por isso que ele me mandava dinheiro.
Quando você começou a pensar em fundar a USAF (Unites States Aikido Federation)?
Posso pensar em duas razões: uma foi por causa do rompimento de (Koichi) Tohei Sensei com o Aikikai. Tínhamos que ter nossa própria identidade. E também, por causa da fundação da International Aikido Federation. Fomos mais ou menos forçados a nos unir rapidamente. Não fomos avisados de nada até tudo já estar estabelecido, porque era uma situação mais européia.
Então o Chiba nos perguntou se iríamos aderir. Falamos OK, e ele então disse que teríamos que formar uma federação nacional para entrar como membro. Foi por isso que começamos. Tivemos que fazer inúmeras reuniões para organizar tudo isso. Yoshioka, no Havaí, cooperou. Juntamos um bom grupo de pessoas. Bill Witt, Frank Doran, Bob Nadeau… O grupo da Costa Oeste.
Quem era o Shihan aqui na época?
Kanai Sensei, claro. Akira Tohei Sensei estava em Chicago na época… Ele ficou no Havaí antes disso por um bom tempo. Na verdade, ele estava no Havaí quando eu estava a caminho de Nova York em 1964. Dei uma passada lá para encontrá-lo. Ele foi enviado para ficar lá pelo período de dois anos. Naquele tempo ele era aluno direto do Koichi Tohei. Por isso Tohei Sensei o mandou para lá. Então ele retornou ao Japão por um tempo, e depois foi para Chicago.
Então a USAF foi formada depois da saída de Koichi Tohei Sensei do Aikikai?
Foi. Nós já tínhamos alguma coisa como uma associação na Costa Leste, mas nada nacional.
Imagino que foi um período difícil quando Koichi Tohei saiu.
Foi. Foi uma grande ruptura. Alguns dos professores japoneses foram com ele. Na maioria os alunos diretos mais antigos de Tohei Sensei em sua cidade natal. Toyoda foi um dos que rompeu. E também Shuji Maruyama. Ele estava em Cleveland inicialmente. Tinha sido contratado por alguma escola de arte marcial de lá. Depois ele se mudou para a Filadélfia. Ele foi junto com o Tohei, o que foi bom para mim e Kanai. Ele era muito chato (risos). De certa forma achei esse rompimento muito ruim, porque não sabia como e exatamente por que o Koichi Tohei havia mudado de idéia quanto ao Aikikai.
Mas… Ele era um bom líder. Tinha carisma. Era forte, positivo. Sempre falava tudo diretamente. Ele era muito bom, um chefe fácil e tranqüilo. Por um lado detestei isso ter acontecido, mas por outro lado foi uma mudança positiva.
O Aikido se tornou mais claro, o aspecto da técnica em si. É bem mais claro o que ensinamos hoje. Sabe… Aquelas coisas do Tohei… Braço não-dobrável, ki, ki, ki… Muita filosofia, pouca técnica básica. Então por um lado é bom que tenha acontecido assim. Também foi bom o que aconteceu com o Saotome. As pessoas que foram com ele… Limpou a casa de certa maneira.
Então apesar de ter uma relação pessoal próxima com Koichi Sensei, você não quis se separar?
Eu fui bem franco. Ele tinha tanta certeza que eu iria com ele… Foi um erro de cálculo muito, muito grande da parte dele. Ele não tinha dúvidas de que eu o apoiaria. Eu tinha muita influência… Ele achou que teria todos os Estados Unidos. Eu lhe escrevi, “Eu positivamente lhe respeito, ainda o considero como um professor, mas ouvi lados diferentes dessa história, das razões pelas quais você está saindo da organização.
Tenho uma responsabilidade quanto aos meus alunos. Se estivesse só por minha conta, talvez fosse com você, mas não posso.” E essa é outra coisa boa nele. Ele me escreveu uma carta simpática dizendo, “Entendo sua situação, que é muito clara.” Ele foi muito amável e não tive problemas quanto a isso. Mas antes disso, ele não tinha dúvidas que eu iria junto.
Ele também achou que os outros iriam com ele?
Isso eu não sei. Provavelmente. Acho que ele é um homem muito confiante… Achava que os Estados Unidos estavam com ele, então talvez tenha pensado que sim, mas não foi como aconteceu. Até mesmo no Havaí, que era seu próprio território, eles também não o seguiram.
Yoshioka estava encarregado lá, mas ele também não saiu. Yoshioka era uma pessoa bem antiquada. Sua mentalidade era muito leal, sabe? A instituição é a instituição. Vem primeiro lugar. É nosso dever. Pessoalmente, gosto do Tohei Sensei. Mas faço parte de uma organização. Algumas pessoas saíram com ele e depois se separaram dele também. Todos fizeram a mesma coisa que ele fez.
Isso é interessante. Quando um grupo se divide, as pessoas freqüentemente tornam a se dividir
É como uma reação nuclear, divide, divide, divide.
Você acha que as pessoas enfatizaram mais o aspecto técnico do Aikido como resultado disso?
Acho. As pessoas mais sossegadas, mais tranqüilas, tinham uma atração por Tohei Sensei. Pessoas que não querem treinar muito arduamente, que não querem sofrer. Ele as atraía com aquela filosofia de ensino. Era fácil de fazer. O treino não era tão puxado. Por isso falo que foi bom que tudo aconteceu. Esse pessoal foi com ele e nós não precisamos deles.
É claro que Tohei Sensei tinha muitas coisas boas para oferecer. Inclusive muitas coisas que faço hoje, aprendi com ele. Mas jamais poderia fazer aquilo cem por cento do tempo. Impossível. Mas ele nos deu alguns pontos muito bons. Benéficos. Não há dúvida. Mas não gosto de ser parcial e insistir que tem que ser só desse jeito.
Sensei, você poderia falar um pouco mais sobre o grupo que permaneceu unido? Sobre nossa forma de treinar com mais ênfase no aspecto técnico, na prática árdua? Por que você acha isso importante ?
Porque no final das contas, as pessoas falam sobre esses aspectos espirituais das artes marciais, budo, mas o budo é, ainda assim, um compromisso físico, contato físico. Você aprende com seu corpo praticando movimentos físicos. Por isso digo que não gosto dessa abordagem demasiadamente parcial, enfatizando apenas o lado espiritual. Além disso, gosto de manter a pureza da arte que aprendi com O-Sensei, que é o que acredito que esteja fazendo.
E os outros uchi deshi que estavam no seu grupo compartilhavam dessa mesma abordagem?
Creio que sim. Ângulos diferentes, é claro, mas isso é que é bom no Aikido. Todo mundo é diferente, desde que não vá longe demais. Há estilos diferentes, as pessoas estudaram em diferentes épocas com O-Sensei, e portanto foram expostas a coisas diferentes. Basicamente, há uma similaridade entre nós… Sugano, Chiba, Kanai, diferentes abordagens, diferentes ângulos, mas isso é natural.
Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
(… Continua)